segunda-feira, 18 de junho de 2012

Males de nosso tempo: plástico mata

OS PLÁSTICOS PODEM SER PERIGOSOS?
Em alguns países, a quantidade média de espermatozoides por indivíduo caiu pela metade nos últimos 60 anos, enquanto aumentou a incidência de câncer e de malformações no sistema reprodutivo masculino. Suspeita-se que esses efeitos estejam relacionados à contaminação ambiental. Este artigo apresenta dados recentes quanto aos danos à saúde humana – em especial, interferências no sistemma hormonal – causados por substâncias químicas presentes em grande número de produtos plásticos usados pela população humana e descartados no ambiente. Entre esses compostos estão os liberados pela queima do policloreto de vinila, conhecido pela sigla PVC.
SÔNIA CORINA HESS
Universidade Federal de Santa Catarina (campus de Curitibanos)
 
É crescente o número de substâncias químicas, presentes em plásticos, suspeitas de atuar como hormônios artificiais ou de interferir no sistema endócrino, levando a doenças e disfunções em adultos e crianças e a malformações em embriões. A questão desperta grande preocupação porque os plásticos são virtualmente onipresentes na vida humana contemporânea, sendo empregados na fabricação de uma infinidade de produtos, muitos deles destinados a crianças ou a hospitais.
Em mulheres, a exposição a agentes artificiais que imitam o hormônio feminino natural ( estrogênio ) é o principal fator de risco para o desenvolvimento de doenças co-mo endometriose e câncer ( de mama e de útero ). Já a exposição de homens adultos a essas substâncias também pode causar câncer, além de levar à impotência ou induzir crescimento de mamas ( ginecomastia ) e redução do desejo sexual, dos níveis de hormônio masculino ( androgênio ) no sangue e do número de espermatozoides.
Substâncias artificiais quimicamente muito diferentes agem como interferentes no sistema hormonal. Por isso, é difícil predizer se um material apresentará essa propriedade a partir de sua estrutura química. O dicloro-difenil-tricloroetano, inseticida conhecido pela sigla DDT, largamente utilizado por décadas e hoje de uso banido na agricultura, foi o primeiro produto químico artificial em que a atividade hormonal foi identificada. Ainda em 1949, foi relatado que homens que pilotavam os aviões usados para aplicar esse inseticida nas plantações apresentavam baixas contagens de espermatozoides. Desde então, outros compostos químicos que afetam o sistema hormonal humano foram descobertos.
Suspeitas crescentes
Os efeitos dos compostos presentes nos plásticos no organismo humano ainda estão sendo investigados, mas suspeita-se que eles tenham participação relevante em problemas de saúde que vêm se tornando mais frequentes na população mundial nas últimas décadas.
De 1990 a 2005, constatou-se um aumento de 19% na incidência mundial de câncer, doença responsável hoje por mais de 12% das mortes no planeta: estima-se que os vários tipos de câncer vitimem mais de sete milhões de pessoas por ano. No Brasil, os cânceres representam a segunda principal causa de mortes de mulheres e a terceira, no caso dos homens. Em 2009, segundo dados do Ministério da Saúde, 172.255 pessoas morreram de câncer no Brasil, o que representou 15,6% do total de mortes no país.
Estudos epidemiológicos também têm revelado que, nos últimos 60 anos, em alguns países, em especial os desenvolvidos, e principalmente na Europa, a contagem média de espermatozoides ( por indivíduo ) caiu à metade e que dobrou a incidência de malformações do sistema reprodutivo masculino em recém-nascidos.
Em relação às malformações congênitas, avalia-se que, em média, entre 3% e 5% das crianças nascem, no mundo, com esse tipo de problema. No Brasil, as malformações foram, em 2009, a segunda causa de falecimento de crianças até um ano: 18,3% do total de 7.817 mortes naquele ano. Entre 20% e 25% dessas malformações são atribuídas a causas genéticas, mas com frequência as causas não são identificadas. No entanto, pesquisas têm evidenciado que diversas anomalias congênitas em animais de laboratório e em seres humanos são provocadas por exposição a alguns compostos químicos artificiais, como bisfenol A, ftalatos e alquilfenóis.
Componente tóxico
Por muitos anos, o bisfenol A (BPA) tem sido uma das substâncias químicas de maior produção ao redor do mundo. É empregado na fabricação de diversos plásticos, presentes em muitos itens, inclusive mamadeiras, garrafas de água mineral, selantes dentários, latas de conserva, tubos para água, CDs e DVDs, impermeabilizantes de papéis e tintas. Todos esses materiais, ao sofrer a ação de processos físicos ou químicos, liberam bisfenol A em alimentos, em bebidas e no ambiente.
Essa substância, de reconhecida atividade hormonal, foi detectada, por exemplo, na saliva de pacientes tratados com selador dentário à base de resina derivada do BPA ( uma hora após o tratamento e em quantidades suficientes para estimular a proliferação de células de câncer de mama ), em mamadeiras de plástico ( policarbonato ) e sob condições semelhantes às do uso normal, em líquidos de latas de conservas de alimentos revestidas por resina contendo BPA ( que também estimularam a proliferação das células de câncer de mama ), em amostras de leite e na água mineral acondicionada em galões de policarbonato, entre muitos outros itens.
Pesquisa baseada na análise de fluidos corporais, nos Estados Unidos, encontrou o BPA em 95% das amostras e levou os pesquisadores a concluir que “a frequente detecção da substância sugere que os habitantes estão amplamente expostos a ela”. Os autores destacaram que as concentrações de BPA em fluidos corporais humanos são pelo menos mil vezes superiores às concentrações necessárias para a ocorrência dos efeitos em células descritos em estudos científicos. Esses resultados, segundo os autores do estudo, indicam que a substância já deve estar provocando amplos efeitos biológicos em humanos. Particularmente preocupantes são os elevados níveis de BPA detectados em cordões umbilicais, no soro materno durante a gravidez e no fluido amniótico uterino durante o período de maior sensibilidade do feto aos efeitos danosos dos interferentes hormonais.
Em novembro de 2006, institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos promoveram, na Carolina do Norte, uma reunião científica intitulada ‘Bisfenol A: uma avaliação da relevância dos estudos ecológicos, in vitro e com animais, na investigação dos riscos para a saúde humana’. O relatório final do evento, elaborado por 35 pesquisadores, afirma: “Os muitos efeitos adversos observados em animais de laboratório expostos a baixas dosagens de BPA, tanto no período de desenvolvimento quanto na idade adulta, causam grande preocupação com relação ao potencial de que efeitos semelhantes ocorram em seres humanos [...]. Tendências recentes do adoecimento de seres humanos têm semelhança com os efeitos adversos observados em animais de laboratório expostos a baixas doses de BPA.”
São citados como exemplos “os aumentos da incidência de câncer de próstata e mama, de anormalidades urogenitais em bebês do sexo masculino, de puberdade precoce em meninas, de desordens metabólicas ( obesidade e diabetes resistente à insulina ), de problemas neurossociais ( hiperatividade associada a déficit de atenção e autismo ), além de diminuição da qualidade do sêmen dos homens.” O relatório revela ainda que os níveis de BPA detectados no sangue, em tecidos e na urina de habitantes dos países desenvolvidos “excedem os níveis produzidos pelas doses usadas nos experimentos de ‘baixa dosagem’ em animais”.
Uso até nos hospitais
Os ftalatos compõem outra classe de materiais químicos produzidos em larga escala e aplicados no PVC ( tornando-o mais flexível ) e em materiais de construção, móveis, roupas, solventes, adesivos, agentes dispersantes em inseticidas, repelentes e perfumes etc. Devido ao amplo uso, tanto pessoas quanto animais domésticos e selvagens têm sido expostos aos ftalatos por ingestão, inalação, absorção pela pele ou administração intravenosa. Muitos brinquedos, mamadeiras e outros utensílios plásticos são fontes potenciais de contaminação de crianças por ftalatos. Bolsas e mangueiras de PVC contendo ftalatos também são usados em clínicas e hospitais para a administração intravenosa de fluidos, fórmulas nutritivas e sangue, e ainda para a hemodiálise e o fornecimento de oxigênio.
Estudos com homens adultos revelaram uma correlação estatisticamente significativa entre a presença de resíduos de ftalatos na urina e a obesidade e a resistência à insulina ( diabetes tipo 2 ). Outros estudos também demonstraram que a exposição de embriões humanos a ftalatos, no útero, reduz o tempo de gestação e o tamanho dos recém-nascidos, e permitiram associar os níveis de exposição de crianças a ftalatos presentes na poeira, dentro das residências, ao aumento da severidade dos sintomas da asma e da rinite.
Em 2006, pesquisas indicaram associação entre a presença de resíduos de ftalatos no leite materno ( e no sangue dos bebês que beberam esse leite ) e a incidência de criptorquidismo ( a não descida dos testículos para o escroto ). Essa contaminação do leite também foi associada à redução da biodisponibilidade de testosterona livre, necessária ao desenvolvimento normal do trato reprodutivo dos embriões do sexo masculino.
Além disso, estudo feito nos Estados Unidos revelou que mulheres que apresentavam ftalatos na urina durante a gravidez tiveram bebês do sexo masculino com alterações no aparelho reprodutivo ( distância ano-genital menor que a esperada ), em mais uma evidência de que os ftalatos exercem atividade hormonal em seres humanos. Os pesquisadores destacaram que os bebês com essas alterações no aparelho reprodutivo, bem como suas mães, foram expostos a doses diárias de ftalatos inferiores aos limites fixados pela legislação americana. Isso demonstra a necessidade de revisão das normas para a exposição a essas substâncias.
Matéria-prima perigosa
Outras substâncias, os alquilfenóis ( como octilfenol e nonilfenol ), também são usados como aditivos em plásticos. São ainda matérias-primas para a obtenção de surfactantes ( alquilfe-nol-etoxilatos ), compostos com propriedades especiais usados na fabricação de detergentes, pesticidas, herbicidas, cosméticos, tintas e muitos outros produtos domésticos, industriais e agrícolas. Estudos científicos, porém, mostraram que os alquilfenóis, como as outras substâncias já citadas, apresentam atividades hormonais.
Em laboratório, o nonilfenol estimulou a multiplicação de células de câncer de mama e induziu a morte celular programada de células do timo, o que pode afetar negativamente o funcionamento do sistema imunológico de mamíferos. Além disso, a exposição contínua ( por 24 horas ) de células de pâncreas a uma solução contendo nonilfenol causou aumento da secreção de insulina, o que pode levar ao diabetes. Administrados a filhotes de ratos, o octilfenol e o nonilfenol interferiram de modo intenso no desenvolvimento do cérebro, resultando em hiperatividade. Em outro estudo, a ingestão de nonilfenol por ratas grávidas e seus filhotes ocasionou alterações de comportamento – quando os animais se tornaram adultos – em relação a estímulos de dor e medo. O nonilfenol já foi encontrado na água comercializada em garrafas de PVC e de outro material plástico, o polietileno de alta densidade ( PEAD ); no leite comercializado em embalagens que contêm PEAD; no leite que passou por tubulações industriais de PVC; em alimentos que tiveram contato com luvas, filmes de PVC, pratos e copos descartáveis de materiais como poliestireno ou polipropileno; e ainda na água de consumo e em efluentes de estações de tratamento de esgoto ( em concentrações suficientes para causar a feminização de peixes ).
Estudo sobre a qualidade das águas destinadas ao abastecimento público na região de Campinas (SP), em 2006, detectou a presença de hormônios e interferentes hormonais como dietil e dibutilftalato ( 0,2 a 3 partes por milhão – ppm ), etinilestradiol ( 1 a 3,5 ppm ), progesterona ( 1,2 a 4 ppm ) e bisfenol A ( 2 a 64 ppm ). A taxa de transferência de bisfenol A, ftalatos e alquilfenóis dos plásticos para outras substâncias com as quais entram em contato ( líquidos, alimentos e materiais usados em procedimentos médicos, por exemplo ) depende de diversos fatores, como o teor desses compostos nos plásticos, o tempo de contato entre estes e as outras substâncias e a natureza destas ( materiais gordurosos tendem a absorver os interferentes hormonais mais facilmente ), além da temperatura e do grau de agitação.
Risco na queima do PVC
Outro aspecto relevante refere-se aos plásticos contendo policloreto de vinila ( PVC ). Segundo o Instituto do PVC, entidade ligada à indústria do setor, em 2008 o Brasil consumiu 1,04 milhão de toneladas de plásticos contendo esse material. Uma grande evidência da ampliação da produção e do uso do PVC no Brasil é a presença, na maioria das residências e edificações atuais, de forros, assoalhos, cadeiras, mesas e diversos outros itens produzidos com tal plástico.
Se o PVC se mostrou, por um lado, adequado a essas aplicações, seu uso em muitos objetos do cotidiano pode, por outro, trazer severos riscos à saúde pública. Isso porque, como foi constatado por muitos pesquisadores, a queima desse composto a temperaturas entre 450ºC e 850ºC provoca a formação de dioxinas e furanos, substâncias extremamente tóxicas aos humanos ( causam câncer, malformações congênitas, infertilidade, disfunções sexuais e outros problemas ). Essas substâncias também persistem por longo tempo no ambiente. Portanto, quando o PVC é queimado acidentalmente ( em incêndios, por exemplo ) ou propositalmente, de forma inadequada ( em incineradores, dispositivos de geração de energia ou a céu aberto ), o ambiente fica irremediavelmente contaminado por dioxinas e furanos. Isso põe em risco a saúde de todas as pessoas que vierem a ser expostas – no solo, em águas naturais ou até no ar – a esses compostos de alta toxicidade.
Restrições ainda tímidas
Apesar dos muitos resultados científicos que apontam os efeitos hormonais de alguns compostos químicos empregados na fabricação de plásticos de uso amplo, as restrições legais a eles ainda são pequenas. No Brasil, em setembro de 2011, Agência Nacional de Vigilância Sanitária ( Anvisa ) determinou a proibição da fabricação e venda de mamadeiras que contenham bisfenol A. Essa medida já havia sido adotada em países como Canadá, China e Dinamarca e em vários estados dos Estados Unidos.
O emprego de alguns ftalatos também foi proibido, na União Europeia e nos Estados Unidos, na fabricação de brinquedos para crianças menores de três anos e de materiais para uso infantil. A legislação brasileira específica para componentes de embalagens em contato com alimentos estabelece limites de uso de algumas substâncias químicas em sua composição e limites de migração para os alimentos embalados, mas, no caso dos ftalatos, prevê apenas restrições, mas não proibição. Diante do exposto, evidencia-se a necessidade de um grande debate sobre o tema, visando elaborar e aprovar legislação restritiva, que leve em consideração os resultados científicos na área e os riscos apontados.
 
( TEXTO PUBLICADO NA REVISTA CIÊNCIA HOJE, EDIÇÃO 292, MAIO DE 2012 - BAIXE AQUI O PDF )

Um comentário :

Jorge Ramiro disse...


Se você tem qualquer doença, eu recomendo que você consulte seu médico para prescrever uma droga. Eu tive problemas com o plástico e ver meu médico de geap e me curou.

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