quinta-feira, 28 de junho de 2012

Historinhas paulistanas

OU: Isso aconteceu em São Paulo. Onde mais?

BELEZA É UM VALOR ALTAMENTE VALORIZADO PELA GENTE BONITA PAULISTANA
Essa me contaram, a própria pessoa me contou: subiu no ônibus e ficou em pé. Havia lugar, mas preferiu não se sentar. Nisso, uma bela moça, duns 20, 21 aninhos se apropria dum banco daqueles reservados. E, tão logo se senta, passa a vasculhar a bolsa e dali tira uma espécie de estojo de maquilagem , coisa desse tipo. E passa a se embonecar, não obstante o sacolejar e o pula-pula do veículo.
Certa altura da viagem, sobe uma senhora com o (a) filho (a), este (a) portador (a) da Síndrome de Down.
Como é de se esperar nessas horas, nosso herói também achou que a belezinha faria sua obrigação. Ledo engano. A moça fingiu não ver nada, e continuou se empretecando. Sabe como é: gente bonita não se preocupa com besteiras, como respeito ao próximo, solidariedade, essas bobagens. O negócio é estar sempre bela, vai que a sorte lhe acabe sorrindo.
Meu colega não é adepto de discussões e confrontos, muito menos de represálias, mas ficou tão revoltado que, no exato momento em que ia descer do veículo, a bonitinha estava passando alguma coisa tipo tinta, pincel, rímel talvez, deu um esbarrão no braço da garota, que borrou todo o rosto. Ficou parecendo a Siouxie ( and The Banshees ) 
- Desculpe, foi sem querer - explicou, educadamente, como manda o manual de etiqueta e convívio social.

O DIREITO DO CONSUMIDOR
Eu estava tirando xerox ( fotocópias, pra quem não sabe ) numa dessas papelarias que têm de tudo, até presentinhos. De repente, uma das funcionárias ( que será identificada por "D.Vera" ) ergue dois bichos de pelúcia, e pergunta pro caixa ( o dono ) ou pra quem soubesse responder:
- Não, respondeu um dos balconistas. E foi se aproximando da mulher, que estava atendendo um casal. A consulta do preço fora feita a pedido destes.
O homem do casal, então, aponta pra um dos bichos e diz:
- Então vou querer esse, de nove e noventa.
D. Vera, então, diz pro colega:
- São iguais, mas o preço é diferente? Esse outro tá marcado doze e cinquenta.
O colega ( batizarei-o "Vitor" ) responde:
- Esses bonecos vieram hoje, acabei de botar o preço.
Aí, se dá conta:
- Ahhhh! Me enganei. Olha, moço, os dois custam doze e cinquenta.
O freguês ( doravante identificado por "Verme" ) tinha entendido bem. Um pessoa razoável teria "perdoado" o erro do funcionário.
Só que estamos em São Paulo, a terra do jeitinho e da vantagem em tudo:
-É, mas eu só vou pagar nove e noventa.
A mulher ( vamos chamá-la "Anta" ) do cara apoiou. Um bom negócio não cai sempre do céu. Temos que agarrar todas as oportunidades.
O rapaz da papelaria ( perdão: Vitor ) tentou de novo:
- Eu me enganei e colei o preço errado. Essa etiqueta de nove e noventa era de outro ítem.
Verme não se incomoda:
- Que seje. Mas eu quero esse e vou pagar o preço de nove e noventa.
Anta só olhando. Casou com o cara certo. Ela, gravidez de uns 4 meses. O casal que será uma excelente referência moral pra criança.
Vitor desiste. "Talvez o seu Messias ( o dono ) convença o cara na hora que for feito o pagamento", imagina.
- Aceita cartão, né? - pergunta Verme.
- Aceita, sim. - responde seu Messias.
- Então é no crédito. Embrulha pra presente?
- A gente põe num saquinho de presente, com fita.
Verme lhe estende o cartão. Seu Messias faz os procedimentos e pede pro freguês:
- Digita a senha, por favor.
Verme olha a tela do terminal de cartões e se detém:
- Nããão!! Mas é o nove e noventa, não isso. Falei antes. É lei. Em todo lugar é assim.
Ah! Tava demorando. Deve ser algum artigo da lei do Consumidor ou sei lá que nome tem isso. As pessoas usam as mesmas regras tanto prum Hipermercado rico que errava os preços nas gôndolas de propósito, quanto prum comércio mixo de bairro. Pra ver como o paulistano é. Como ele age. Se bem que o tipo não ia chamar - nem deve conhecer - o PROCON, se quisesse arrumar briga, fazer valer "seus direitos". Esses tipos chamam a polícia.
Vitor ficou inconformado e confrontou o freguês:
- Amigo, eu errei. Você não tem como dizer que foi de má fé. EU vou ter que pagar a diferença...
O freguês, como bom paulistano que é, deu de ombros. Jamais ia deixar uma chance de ouro daquelas passar.
Não tinha como não prestar atenção àquilo tudo que ocorria. Tentei desviar o foco pras coisas que me diziam respeito, mas não consegui. Por isso, deu pra perceber a raiva que foi dominando Vitor. Que, num último ato de "isso não vai ficar desse jeito", botou a mão no bolso e falou pro seu Messias, assustando a todos que assistiam os eventos:
- Seu Messias, eu vou comprar esse bicho, pelos doze e cinqüenta. Eu jogo no lixo depois, mas ele não vai levar essa.
Como todo bom comerciante, seu Messias não topou.
Vitor ficou encarando o casal. Anta desviava o olhar.
O casal deixava o estabelecimento, Verme encarando Vitor, que devolvia a encarada. E Vitor diz pro seu Messias, mas alto suficiente praquela gente escutar:
- Seu Messias, eu ia comprar aquela droga, pelo preço errado, ia jogar no lixo, mas ele não ia levar na mão grande.
Verme escutou isso, e se voltou pro Vitor, sob olhares aflitos da mulher:
- Tá dizendo que eu queria levar vantagem , meu chapa?
Vitor retrucou:
- É isso aí mesmo e...
Antes que terminasse a frase, seu Messias intercedeu e cortou a conversa, acabando com aquilo tudo. Mas também não cobrou a diferença de Vitor, pelo que eu sei.

O FAVOR
Essa eu também presenciei: o cara chega no lugar - um comércio - e pede:
- O senhor faria o favor de trocar cinco de dez pra mim?
O comerciante responde:
- Olha, não dá eu também tô precisando...
A face do sujeito se transforma, em segundos. E ele insiste. "Pede" ( o tom não é bem de um pedido ) novamente:
- Então, mas não dá pra quebrar essa?
- Desculpa, não dá - retruca o comerciante, se desculpando, sei lá de quê nem por quê.
O sujeito - já outra pessoa - saiu resmungando, dá uns passos, olha pra trás, e dá outros passos e olha pra trás, encarando de jeito intimidatório. Seus olhos procurando os olhos do comerciante mau. Este, por sua vez, desviou o olhar, com medo que ficou.


( Histórias totalmente baseadas em fatos reais. Na verdade, são fatos reais. Os nomes dos envolvidos foram alterados para preservar a minha própria integridade  )


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