terça-feira, 22 de maio de 2012

O caso "O Outro Carlos": os erros que levaram inocente a ser executado por injeção letal no Texas

O outro Carlos: erro judicial revelado
Foi executado em 1989; agora, investigação põe a nu erros grosseiros
Carlos DeLuna foi executado por injeção letal em Dezembro de 1989, no Texas. Até ao último dia repetiu as mesmas palavras: «Não fui eu. Mas sei quem foi.» 23 anos depois, uma investigação universitária dá-lhe razão. Mataram o Carlos errado.
David Liebman, professor na Columbia School of Law, conduziu com alunos seus uma investigação ao longo de cinco anos, publicada num ensaio, que identifica uma sucessão incrível de erros e omissões. «Tudo o que podia correr mal correu mal», resume.
Factos. Em Fevereiro de 1983 Wanda Lopez, empregada de uma loja de conveniência numa estação de serviço na cidade de Corpus Christi, foi esfaqueada até à morte. Durante o assalto, Wanda ligou duas vezes para a polícia, que não chegou a tempo. Primeira falha. «Podiam-na ter salvo, e fizeram uma detenção imediata para esconder o embaraço», diz Liebman, na Reuters.
Facto seguinte. Apenas 40 minutos depois do crime a polícia deteve Carlos DeLuna, que estava escondido debaixo de uma carrinha, perto do local. DeLuna foi identificado por uma testemunha, que viu um homem hispânico a fugir.
E aqui começam as falhas. A testemunha disse ter visto um homem de bigode e com uma camisa cinzenta. DeLuna estava barbeado e tinha uma camisola branca.
O detido disse-se sempre inocente, mas não nomeou logo aquele que dizia ser culpado. Só o fez cinco meses mais tarde, quando foi julgado. Outro problema. DeLuna não o fez antes, disse, por medo.
Medo de Carlos Hernandez. Conhecido de DeLuna e de toda a comunidade local, polícia incluída, pelo seu historial violento. Alcoólico, tinha um longo cadastro e andava sempre com uma faca. Usava bigode. Mais.
Os dois Carlos eram muito parecidos. Tinham a mesma altura, a mesma figura e eram muitas vezes confundidos.
DeLuna contou então que nessa noite estava com Hernandez num bar e que este saiu para ir à estação de serviço. Demorou e DeLuna foi procurá-lo. Diz que o avistou a lutar com uma mulher e fugiu. Escondeu-se da polícia, explicou, porque estava em liberdade condicional (por agressão sexual) e não queria meter-se em sarilhos.
Em tribunal, a acusação ridicularizou a informação. Disse que a polícia não tinha encontrado o tal Carlos Hernandez e que ele era produto da imaginação de DeLuna.
Quando Liebman decidiu dedicar-se ao caso, no âmbito de um projeto sobre a falibilidade da pena de morte, pediu a um investigador privado para gastar um dia a procurar Carlos Hernandez, conta o Guardian. Em poucas horas, o investigador encontrou uma mulher que conhecia ambos, descobriu a data de nascimento de Hernandez e o seu longo registo criminal.
Foi preso dezenas de vezes, 13 delas por posse de arma branca. Foi detido duas vezes como suspeito da morte em 1979, por esfaqueamento, de uma mulher chamada Dahlia Sauceda, a segunda já depois da detenção de DeLuna. Mas nunca foi estabelecida a ligação.
O livro conta as diligências que a acusação fez para encontrar Hernandez. Um sargento foi encarregue de comparar as impressões digitais do local do crime com os registos da polícia. Mas concluiu que as impressões eram de tão má qualidade que não podiam ser usadas. Também foram deixadas duas intimações em casa de um outro Carlos Hernandez. E pronto.
A investigação de Liebman concluiu que o próprio Hernandez andou a gabar-se junto dos seu conhecidos de ter matado Wanda Lopez. E no entanto, nunca foi sequer importunado pela polícia sobre este caso. Nem condenado por muitos dos crimes de que foi acusado ao longo da vida. Liebman só vê uma explicação, a de que Hernandez fosse protegido por ser informador da polícia. «É difícil perceber o que aconteceu sem esta peça do puzzle», diz.
Carlos Hernandez viria a morrer de doença em 1999, numa prisão do Texas onde estava por agredir um vizinho com uma faca.
«Los Tocayos Carlos», o ensaio que conta tudo isto, está online, é de livre acesso. ( TVI24 )

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