domingo, 20 de maio de 2012

Alguém bate à porta

Meia-noite e meia. O homem se encontra confortavelmente em sua poltrona, aquela que herdou de seu pai, lendo um livro. Um dos únicos sons claros que se ouvem é o tiquetaquear do relógio de parede.
O homem que lê o livro vive praticamente sozinho. Suas únicas companhias são uma televisão e um gato vira-latas.
Arthur.
Esse é o nome do homem. O gato chama-se "Miau".
( *** )
Toc-toc!
"Ué?! Bateram na porta?", pensa Arthur.
A resposta, afirmativa, vem na forma de outro "toc-toc", só que mais forte:
"Toc-toc!"
Entre assustado e surpreso, Arthur se pergunta quem seria àquela hora. Homem de poucas amizades, não imaginava quem poderia estar ali, batendo à sua porta. Se fosse conhecido, teria ligado antes. Ou chamaria pelo nome. Um vizinho, talvez? Ou...uma vizinha? A Selma do 301?
"Toc-toc...tooc!"
As batidas despertam Arthur de seu devaneio. Sabendo ou não, conhecendo ou não o autor das batidas, Arthur sabe que terá que atender a porta.
Mas ele resolve esperar. Vai que é engano. A pessoa se toca, vê que está no andar errado e sai de fininho, esperando não ter causado nenhum incômodo ao morador daquele apartamento.
"Toc-toc!"
Esperar não deu certo, Arthur. o jeito é atender logo. Enfrentar o chato. Bater na porta dos outros de madrugada...onde já se viu?
Miau nem se mexe.
O relógio segue com sua cadência monótona: tic-tac-tic-tac.
"Toc-toc!"
Não tem jeito, Arthur. Atende logo essa porta e acaba com essa aporrinhação!
Arthur respira fundo. Expira. Espreguiça. Põe de lado o "Crime e castigo". Afasta a manta que cobre suas pernas. Calça as pantufas. Apóia as mãos nos encostos da poltrona. Dá um impulso e se levanta. Olha o gato. Dá mais um suspiro.
"Toc-toc!"
"Já vai, porra!", responde mentalmente Arthur.
(***)
A verdade é que Arthur torceu, até o último instante, para que aquelas batidas não fossem em sua porta. Que fossem no vizinho. Ainda mais àquela hora da noite. Coisa boa não pode ser.
Já descartara engano. Só não tinha certeza de que era mesmo na sua porta. Estava meio sonolento, podia ser no vizinho; à noite, com o silêncio, os sons ficam mais pronunciados.
"Toc-toc-toc!"
O jeito era mesmo atender. 
Arthur dirigiu-se à porta, preguiçosamente. A frequência das batidas só aumentara:
"Toc-toc!"
"Toc-toc-toc!"
"Toc!"
Antes de abrir a porta, Arthur espiaria pelo olho mágico.
OPS! Aquela porta antiga sequer possuía olho mágico! Que merda!
(***)
Próximo à porta, diante do inevitável e derradeiro, Arthur olha pro chão e vê, pela fresta, a sombra de alguém. A iluminação externa, do corredor, formou uma sombra que invadia o apartamento de Arthur.
Havia, realmente, alguém ali.
Mas...quem?
Um conhecido ligaria antes. Se batesse à porta, chamaria pelo morador.
( Vamos e venhamos: uma simples batida na porta não é motivo pra tanto suspense, não? Partindo do princípio, claro, de que alguém acreditaria que isto aqui seja um suspense. )
Considerações à parte, Arthur se pergunta que tipo de mau elemento o colocaria numa pretensa história de suspense chinfrim com esta.
"Toc-toc-toc!"
Bem fortes estas.
Agarrando fortemente a maçaneta, Arthur decide acabar de vez com aquilo.
"Toc-toc!!"
Por meio da maçaneta, Arthur sente as ondas de força vindas daquelas batidas. Que não deixavam dúvidas de que alguém estava diante de sua porta, e desejando ser atendido. E logo.
Numa última e desesperada tentativa de autoengano, Arthur olha pro chão, próximo à fresta, e vê que a sombra invade seus aposentos, confirmando a presença do autor daquelas batidas, há não menos que 30 cm do morador assustado.
"Respira fundo, Arthur..."
Arthur torce a chave de sopetão, vira a maçaneta, num movimento rápido e abre a porta de um só golpe.
Apenas para confirmar que não há ninguém ali.








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