terça-feira, 3 de abril de 2012

A mulher-zumbi e seu celular

Sandra vinha caminhando pela calçada de uma rua de São Paulo. Teclava febrilmente em seu celular. Alguma conversa de elevador, coisa muito importante. Andava teclando e esbarrando nas pessoas. Azar delas. Que também vinham e iam, caminhando e teclando. E Sandra ia, andando e teclando, andando e teclando, andando e teclando. E ainda dizem que santo de bêbado é que é forte.
( *** )
Sabe aquelas propagandas - de carro, por exemplo - em que mostram multidões uniformemente vestidas, caminhando em câmera lenta, numa direção só, enquanto o herói do comercial vai no sentido oposto e coisas desse tipo, com a voz em off do locutor dizendo que os outros são iguais e você, que consome o produto anunciado é diferente e se destaca? Então. Imagine as multidões andando para lá e para cá em imensas filas indianas, colunas de pessoas, teclando em celulares. Imaginou? Muito bem.
( *** )
Sandra vinha, caminhando e teclando suas coisas importantes e, sem olhar para o caminho que tinha diante de si, cai num bueiro destampado.
( *** )
- Xiiii, e agora?, se pergunta.
"Bom", pensa, "vou mandar uma mensagem para alguém vir me salvar."
TIC-TIC-TIC ( som de teclar )
Mas...
- O CELULAR NÃO PEGA!, exclama. TÁ SEM SINAL! MERDA!
Tenta a todo custo fazer o aparelho funcionar, vira daqui, estende os braços o máximo que consegue e... nada!
- Ai, me lasquei. Ai meu joelho, ficou todo ralado!
Diante do perigo que se configurava, Sandra conclui que o melhor seria usar o bom, velho e antiquado meio de comunicação:
- SOCORROOOO! ALGÚEM AÍ EM CIMA!? ME AJUUUDAAAA!
Mas ninguém vem em seu auxílio.
- SOCORRRROOO! EU TÔ AQUI!!! DENTRO DESSE BUEIRO!!! EU ESTOU VENDO VOCÊS!! ME AJUDEM! UMA ESCADA!? UMA CORDA!! OS BOMBEIROS!!
E grita. Grita. Grita.
Mas ninguém percebe. Ninguém presta atenção. Do lado de fora, no nível do chão, multidões de pessoas uniformes passam em colunas e filas indianas, todos teclando e andando, sem olhar em volta, olhos fixos e vidrados nas telas de seus aparelhos maravilhosos. Tudo em câmera lenta. Como se fossem zumbis. Curiosamente, ninguém mais cai no bueiro destampado.
Tempos depois, arqueólogos descobrem, sob os escombros da cidade abandonada, os restos de Sandra. Abraçada a um obsoleto aparelho de celular .

(*) CONTEXTO: Dia desses eu vinha caminhando pela rua, e vi uma mulher "regando" a calçada. Sabe, né? Em vez de varrer, a pessoa fica esguichando água, brincando de tiro ao alvo com uma folhinha insignificante de árvore. Mas não parou por aí. Ela apoia a mangueira ( com a água rolando ) na dobra entre o braço e o antebraço, como se fosse a alça de uma bolsa; daí, bota a mão no bolso, pega o telefone celular - que deve ter tocado, não ouvi - e passa a teclar febrilmente, vidrada. Deixando a água correr, correr e correr. Continuei caminhando, uns 100 metros voltei-me e espiei: a filhadapê CONTINUAVA TECLANDO, sem ligar para a água sendo desperdiçada! Devia ser algo muito importante, um "insight" sobre o sentido da vida ou a fórmula da Pedra Filosofal, sei lá. Um zumbi.


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