terça-feira, 24 de abril de 2012

Clint Estwood: O xerife na mira do tiro

Dois livros recém-lançados - um no Brasil e outro na França - reforçam o movimento de 'desmistificação' do ator, diretor, produtor e roteirista norte-americano Clint Eastwood
Na literatura como na vida, Norman Mailer tanto criticou o macho norte-americano como se investiu do papel. Ele devia, portanto, saber do que falava quando, nos anos 1970, desferiu uma frase de efeito sobre - e contra - Clint Eastwood: “Ele é a prova de que se pode ser bem-sucedido vivendo a vida com frieza.” Nos 80, reformulou o pensamento e saudou em Clint “um grande artista”. Ao longo de mais de 60 anos de carreira, e desde meados dos anos 1950, quando encarnou na TV o caubói da série Rawhide, Clint visava o alto. Ele queria ser um astro e, mais tarde, um grande diretor. Recebeu duas vezes o Oscar da categoria - por Os Imperdoáveis e Menina de Ouro -, mas se prepara agora para completar 82 anos (em 30 de maio) sem haver atingido outra de suas metas: a consagração como ator, reconhecida pela Academia de Hollywood.
O próprio Clint sabe que sua última chance de ganhar o Oscar de ator foi com Gran Torino, que a Academia esnobou, nem sequer indicando a produção para melhor filme ou diretor, o que se repetiu este ano com J. Edgar. Digamos que o xerife de Hollywood não esteja na sua melhor fase, mas ele já teve outras piores. Ressurgiu sempre. O problema é que, octogenário, as chances de ressurreição vão ficando cada vez mais difíceis. E, assim como continua sendo cultivado em muitas frentes como “autor”, há hoje um movimento muito forte de desmistificação do Homem sem Nome, (anti) herói emblemático que começou a desempenhar nos spaghetti westerns de Sergio Leone, há quase meio século. Dois livros participam do movimento. Um deles está saindo no Brasil. Chama-se Clint Eastwood - Nada Censurado, de Marc Eliot. No original é American Rebel - The Life of Clint Eastwood, mas a Editora Nova Fronteira deve ter achado que a imagem de Clint como rebelde americano não cola mais, para um sujeito tão idoso (e consagrado). O outro livro, bem mais devastador, saiu na França e segue sem editora no País: Clint Fucking Eastwood. O autor é o crítico Stéphane Bouquet e a editora é a francesa (apesar do nome) Capricci. É o sétimo lançamento de uma coleção sugestivamente chamada de Actualité Critique, Atualidade Crítica.
Ambos, o autor norte-americano e o francês, e um (o primeiro) certamente mais admirador que o outro, não deixam de reconhecer que Clint talvez não seja, talvez nunca tenha sido, o herói cuja imagem esculpiu. O sujeito “frio” (re)visto por Norman Mailer escolheu, sintomaticamente, um nome espanhol, Malpaso, para intitular sua produtora. Na época, Clint estava se estabelecendo em Hollywood após adquirir fama e fortuna na Itália, com westerns rodados na Espanha. Poderia ser uma homenagem, mas Marc Eliot fornece uma explicação até mais prosaica. Malpaso, Mau Passo, é o nome do córrego que delimita a propriedade de Clint Eastwood em Carmel, onde ele comprou sua casa (e de onde mais tarde foi prefeito). Vai se enganar quem buscar aí uma metáfora da trajetória de Clint.
Nunca houve um mau passo na determinação com que ele traçou a própria trajetória, exceto eventuais apostas criativas nas quais o público não correspondeu, mas isso é normal na obra de qualquer arista. Com uma frieza notável, digna de Dirty Harry - o inspetor Harry Callahan, seu personagem emblemático na série policial que começou com Don Siegel -, Clint nunca vacilou em se ver livre de agentes, diretores, amantes, de quem quer que fosse que, em algum momento, pudesse se constituir em entrave aos seus planos. Dirty Harry eliminava com tiros de sua Magnum 44. O calibre do Clint ator, produtor e diretor, enfim do “astro”, sempre foi de outra ordem - seu poder de fogo na indústria. O caso mais notável é o de sua ex-mulher, Sondra Locke, atriz e diretora. Marc Eliot deixa ao espectador o beneplácito da dúvida sobre se Sondra não estaria mesmo tentando se beneficiar do ex-marido, que a submeteu a muitas (excessivas?) humilhações. Pode ser, mas Eliot revela detalhes de um acordo que Clint fraudou com a empresa Warner para impedir que ela seguisse com a carreira na Warner (onde ele era rei).
Sondra nunca conseguiu emplacar um projeto na empresa, após a separação. A alegação era sempre a mesma - incompetência (dela), mas, como diretora, Sondra havia sido capa de Cahiers du Cinéma antes de Clint, com Ratboy. Ressentido e autoritário - o humanismo fica para os filmes -, ele não lhe estendeu a mão, como faria um herói fordiano como John Wayne, nem quando ela teve câncer de mama e se submeteu a uma mastectomia. As mulheres sempre foram um problema para Clint. Problema não é bem a palavra. As feministas de carteirinha se ouriçavam quando Dirty Harry empunhava a Magnum na tela. Na vida, Clint colecionava amantes e filhos ilegítimos. Com um amigo ator, nos anos 1950, a diversão era sair com starletes e comparar, no dia seguinte, as respectivas performances.
É interessante, mas Stéphane Bouquet inicia seu livro assinalando justamente como o tamanho do pênis é importante no cinema de Clint. Você nem deve se lembrar, mas ele cita cenas e diálogos que revelam verdadeira obsessão pelo tema. O tamanho do pênis é um símbolo muito antigo de macheza (e poder). Com exceções, é claro - o Clint sensível de As Pontes de Madison -, essa elefantíase do sexo masculino presta-se a uma observação curiosa. Nos filmes que protagoniza, Clint está sempre a postos para salvar o mundo, mesmo pelo sacrifício (como em Gran Torino). Nos filmes em que ele não aparece, a ausência permite uma constatação. Os heróis substitutos não têm força para a tarefa de salvar o mundo. A humanidade, e a própria estrutura narrativa, ficam à deriva.
O salvador tentou ser vice do ex-presidente George Bush (pai), mas o Partido Republicano não encampou a candidatura. Quando se candidatou a prefeito de Carmel, Clint o fez sem legenda. A história dessa candidatura merece ser contada. Clint se candidatou porque o prefeito em exercício proibia a venda de sorvetes em casquinha na praia. Dirty Harry, ou super-Clint, fez da defesa da casquinha a sua plataforma. Mas havia mais - como cidadão mais ilustre da cidade, ele pleiteou a autorização para fazer uma reforma na casa. Foi impedido, sob a alegação de que o código de construção não permitia.
Eleito, Clint liberou as casquinhas, demitiu os funcionários que o impediam de fazer a reforma que queria - e modelou a casa ao seu gosto. Isso feito, requereu licença, voltou à carreira em Hollywood e entregou a administração a uma funcionária da prefeitura de Carmel. Clint que nos perdoe, mas isso está mais para um canalha do que para o herói, mesmo ambivalente, que ele protagonizou para Leone e Siegel.

Sobre o homem, antes do artista
Marc Eliot corre o risco de interessar menos aos cinéfilos
Tudo o que você queria saber sobre o homem Clint Eastwood, mais do que sobre o artista. Marc Eliot pesquisou em jornais, revistas e livros de outros autores para traçar seu perfil do xerife de Hollywood. Sua biografia evita o puxa-saquismo do biógrafo oficial de Clint, Richard Schieckel. Mas, se conta tudo sobre as mulheres, as amantes e os filhos bastardos em Nada Censurado, Eliot resume a discussão sobre os filmes a clichês que parecem saídos de notas de produção.
A consequência é que ele corre o risco de satisfazer mais o público ávido por fofocas do que os cinéfilos. Clint veio de uma família humilde. O pai penou durante a depressão econômica dos anos 1930. Ele próprio percorreu um longo e difícil caminho para se impor, primeiro na TV, na série Rawhide. Os dois Oscars de melhor filme e direção, por Os Imperdoáveis e Menina de Ouro, não o acalmaram. Clint, segundo Eliot, sempre sonhou com o prêmio de ator.
É quando quer ser crítico com o homem que Eliot ilumina o artista. Clint ia só interpretar As Pontes de Madison. O diretor Buce Beresford queria uma atriz nórdica - Lena Olin - no papel. Clint exigiu Meryl Streep. Contracenar com ela ajudaria no próprio Oscar. Beresford se demitiu, Clint fez o filme ao seu jeito. Não ganhou o prêmio, mas Madison ficou bom demais.

O fetiche de uma velha América
Filmes não justificam reputação, provoca Stephane Bouquet Psicanálise elementar, caro leitor. O crítico francês Stephane Bouquet, ex-Cahiers du Cinéma, não é um fofoqueiro profissional como Marc Eliot (leia ao lado). Ele se debruça sobre o artista - e o Clint pós-Os Imperdoáveis. Chega a J. Edgar. O poderoso diretor do FBI vira um clone patético de Norman Bates (em Psicose, de Alfred Hitchcock).
Bouquet parte do princípio de que só os filmes não justificam a reputação de Clint. Mas, se não, o que explica o culto? Os filmes não cessam de traçar autorretratos do artista. Por meio do retrato de um machão de carteirinha, Bouquet traça uma análise bastante crítica da América. Ou do que restou do sonho americano.
Assim como analisa o culto do falus na obra do autor - a Magnum de Dirty Harry não é 44 por acaso -, Bouquet tem um olhar arguto para o que considera a “fetichização” de Clint. Desdobrando-se em personagens como os pistoleiros de Sergio Leone, os policiais de Don Siegel, músicos como Bird e cineastas como John Huston (nos próprios filmes), ele se oferece à veneração dos espectadores. Na verdade, é a conclusão de Bouquet: o que os fãs veneram em Clint é o fetiche que representa, de uma (velha) América da qual insiste em ser o último representante.







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