quarta-feira, 14 de março de 2012

Exército israelita cada vez mais influenciado pela religião ortodoxa. Para os israelitas seculares, isto não ameaça apenas a instituição militar, mas também o país.

A presença da religião nas Forças de Defesa de Israel é cada vez mais acentuada e há já quem desobedeça às ordens de comando para cumprir as ordens de Deus
Roni Daniel viu o que estava escrito na casa de banho. Antigo comandante de infantaria que combateu em três guerras do Médio Oriente e hoje é o decano dos correspondentes de defesa israelitas, Daniel visitou recentemente o quartel-general em Telavive. Num urinol que usa um sensor de movimento para accionar o autoclismo havia um cartaz: “Proibido no shabat”. Segundo percebeu, aos soldados estava a ser dada a ordem de se submeterem às restrições dos judeus ortodoxos no uso de electricidade entre a noite de sexta-feira e a noite de sábado.
Para Daniel, e para milhões de outros cidadãos de Israel, o aviso é um símbolo das mudanças arrepiantes numa instituição há muito venerada como o bastião da unidade nacional. Um número cada vez maior de recrutas é judeu ortodoxo – espelhando o crescimento dessa minoria na sociedade israelita. Alguns soldados religiosos encaram o serviço militar através do prisma da sua própria piedade – como realização da sua visão messiânica que vê os judeus a conquistar as terras bíblicas ou como uma instituição que deve ser subordinada à ordem rabínica.
Para os israelitas seculares já preocupados com o papel da religião nos assuntos do Estado, isto não é uma ameaça apenas para a instituição militar, também o é para o país no seu todo.
“No meu tempo, os portadores de quipa vinham para a tropa e serviam ao meu lado. Viviam a sua vida com bem entendiam, respeitávamo-los e eles respeitavam o nosso estilo de vida”, diz Daniel que tem 64 anos e é laico. “Em certo sentido, a geração de hoje alista-se com o objectivo de impor um estilo de vida aos outros – ditar os comportamentos. É uma anexação lenta.”
A cúpula das Forças de Defesa de Israel (IDF) diz que a religião não está a afectar a cadeia de comando. “Nenhum rabino comandará as minhas unidades”, garantiu ao Canal Dois da televisão israelita no mês passado, o chefe do Estado-maior, o tenente-general Benny Gantz.
A IDF foi sempre um exército “judeu”. As suas rações são kosher, os seus capelões são rabinos e opera – com excepção do tempo de guerra – em função do calendário festivo. Nunca recrutou soldados nos 20% da minoria árabe do país. Mas a sua identidade sempre foi mais cultural que religiosa.
Os dados da IDF em termos de pessoal mostram que isso está a mudar. Cerca de 57% da maioria judaica, de acordo com o censos, define-se como tendo algum grau de prática religiosa. Dois grupos distintos mas relativamente pequenos de israelitas estão a aumentar quer em números quer em poder: os ascéticos, em grande parte apolíticos ultra-religiosos haredim, que se alistam apesar da sua comunidade não ser obrigada a fazê-lo; e os judeus ortodoxos pró-colonatos, cujo dogma está menos relacionado com a religião e tem mais a ver com a santidade da luta de expansão territorial de Israel.
De acordo com os militares, o ano passado houve 5 800 soldados haredi, mais um quarto que os 4 600 de 2007. Estes soldados servem num batalhão de infantaria próprio, bem como em unidades dedicadas a dar aos soldados uma formação da qual possam viver no regresso à vida civil. A presença haredi pode crescer ainda mais depois do Supremo Tribunal ter acabado com a lei que permitia aos homens ultra-ortodoxos evitar o recrutamento.
O outro grupo de soldados devotos é mais difícil de classificar. Muitos vêm dos colonatos na Cisjordânia – o berço do judaísmo e um território onde os palestinianos procuram edificar o seu Estado – e mostram uma vontade desproporcionada de se juntar a unidades de combate, bem como ao corpo de oficiais. Um estudo de 2010, citado pelo jornal oficial dos militares “Bamahane”, diz que, por exemplo, 13% dos comandantes de companhia – os oficiais de baixa patente que sem dúvida têm influência mais imediata sobre as tropas – vive nos colonatos da Cisjordânia. Em comparação, os colonos são apenas 2,5% da população total de Israel. O “Maarachot”, o jornal do Ministério da Defesa, publicou números mostrando que a percentagem de cadetes de infantaria ortodoxos ascendeu de 2,5% em 1990 para 31,4% em 2007.
Estas mudanças estendem-se ao mundo real. Há muito que o exército usa bandas de música, incluindo mulheres soldado como cantoras, nas cerimónias fúnebres dos militares mortos. Esses eventos foram a seu tempo assunto de consenso, símbolo de igualitarismo para a IDF que recruta milhares de mulheres laicas. No entanto, os rabis puritanos consideram que mulheres cantoras são uma tentação sexual e os pedidos de soldados religiosos para serem dispensados desses eventos foram crescendo até se transformarem, o ano passado, em apelos abertos ao seu boicote.
O chefe do Estado-maior reagiu, insistindo na presença obrigatória de todos. As recriminações dos rabinos vieram logo a seguir. Moshe Ravad, tenente-coronel e capelão a cargo de encorajar o alistamento dos ultra-ortodoxos, demitiu-se em protesto em Janeiro.
A agitação coincidiu com o muito publicitado ultraje israelita pela forçada segregação de género dentro das comunidades ultra-ortodoxas e aumentou a sensação de que a sociedade está a mudar. O chefe dos rabinos militares, o brigadeiro-general Rafi Peretz, afirmou que Ravad havia posto em causa um projecto importante e o esforço nacional generalizado para manter a harmonia dentro das forças armadas.
Ao jornal conservador israelita “Makor Rishon”, Peretz disse que, por uma questão de unidade do exército, aconselharia os soldados religiosos a assistir a eventos formais onde haja mulheres a cantar. “[Devem] ir, porque estamos ansiosos para preservar o Estado, a instituição militar, a nação que se ergue e o princípio da nossa redenção”, explicou Peretz, combinando numa frase os termos seculares israelitas de coesão com laivos de profecia dos últimos dias.
No entanto, Peretz, antigo piloto de helicópteros bem barbeado, também disse que o futuro poderá ser favorável aos soldados religiosos. Durante a formação na força aérea, “também tínhamos de fazer voos teste no Shabat e eu pilotava. Anos depois, perguntámos aos militares se os mesmos eram realmente necessários e eles mudaram-nos. Os militares levam em conta o estado das coisas.”
Este tipo de afirmações faz crescer as preocupações entre os liberais israelitas de que os seus compatriotas religiosos – que tendem a ter famílias mais numerosas e se mobilizam frequentemente em prol de causas políticas conservadoras – possam usar a instituição militar para fortalecer a sua influência cultural e eleitoral.
nos colonatos As memórias da retirada israelita da Faixa de Gaza em 2005, quando dezenas de soldados religiosos praticantes foram punidos disciplinarmente por se recusarem a remover os colonos, ainda estão frescas. Alguns soldados religiosos estão preocupados pois as demolições de colonatos não autorizados na Cisjordânia poderá levar à retirada forçada de colonos. Um punhado deles protestou publicamente, violando a separação exigida pela lei entre exército e política.
A agitação estendeu-se ao vandalismo. Três soldados foram detidos em Dezembro por suspeita de danificar propriedade na Cisjordânia – tanto de palestinianos como de aquartelamentos israelitas – como parte dos denominados ataques “Etiqueta de Preço”, feitos para mostrar ao governo que “pagará” um preço por restringir os colonatos
“À medida que os homens que acreditam na santidade inviolável da Terra Sagrada de Israel sobem na hierarquia de comando, aumentam as hipóteses [de actos] piores que a recusa: motins imediatos e mesmo oficiais superiores a dar ordens a unidades para impedir a retirada”, afirmou Gershom Gorenberg, autor do livro “The Unmaking of Israel” que analisa a influência política de religiosos judeus pró-colonatos.
“Numa democracia é fundamental que o exército esteja totalmente sujeito às decisões de um governo eleito e que não haja receios de que outros grupos políticos ou ideológicos influenciem as decisões de soldados e oficiais”, acrescentou Gorenberg.
Mas, em Eli, um colonato predominantemente ortodoxo, bem no interior da Cisjordânia, o major Kobi Eliraz descarta a conversa de que os religiosos podem tomar conta do exército. “Esgotaremos todos os meios legítimos para bloquear [o desmantelamento dos colonatos], mas se o pior acontecer, obedeceremos. Estamos completamente identificados com o Estado. Não queremos mudá-lo.” ( Ionline.pt )

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