quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Conto sobre um mal-entendido

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Eles não eram exatamente amigos. Serjão e Bebeto. Viviam se trombando, nos bares. Amigos de outros que conheciam uns e conviviam nos mesmos locais. Eram colegas de boteco.
Você sabe como é: para beber e dar risada em boteco você não precisa, necessariamente, conhecer os outros desde criança. Basta a canjibrina começar a fazer efeito e, aí, todo mundo vira amigo de longa data.
Certo dia estavam, como sempre, num mesmo lugar, por puro acaso. Ninguém marcou nada. Talvez aquele estabelecimento fosse o único lugar aberto naquela hora da noite. Todos os presentes bebiam e jogavam lorota fora, zanzavam, iam de mesa em mesa, sentavam, trocavam umas palavras, bebiam, saíam, zanzavam.
Serjão, na verdade, estava mais interesado numa garota. Janaína era seu nome, se não me engano. Passou a noite toda colado na garota, tentando ganhá-la no papo. Ela, gostando do jogo, da paquera, mas não decidia nada.
Ele tentava, tentava, ia no balcão pegar outra latinha de cerveja, ia ao banheiro, trombava com algum chegado ou conhecido, trocavam umas palavras, ele lembrava que tinha que ir atrás da Janaína e tudo se repetia, mais tarde.

Só que...
De repente, quando nada mais parecia que podia estragar a noite, o Serjão vai na direção de Bebeto, aos berros. Berros que superaram em decibéis o som ambiente que saía dos alto-falantes. E era um bar onde tocava rock, vejam vocês:
- VOCÊ É LOUCO? POR QUÊ VOCÊ FEZ ISSO, SEU DESGRAÇADO? QUE QUE FOI QUE EU TE FIZ SEU FILHO DA PUTA?
Bebeto ficou espantado com aquilo. Ele nem estava trocando muita idéia com o Serjão, já que este passou a noite cortejando Janaína, ainda que sem sucesso até àquela altura da noite.
Bebeto, que passou a noite com conversando aqui e acolá com diversas outras pessoas da turma, espantado com a atitude do Serjão, tentou fazer um rápido repasse das conversas que teve, tentando desesperadamente lembrar o que talvez pudesse ter feito para o Serjão. Impossível. Não lembrou de nada:
"Aimeudeusquefoiqueeufizeunãofiznadaqueéqueeleachaqueeufiz?"
Em volta o diz-que-diz se instalou e as pessoas, conhecedoras das personalidades em questão ficaram intrigadas:
- Que é que você fez, Bebeto?
- N-n-não sssei...
- Pára com isso, Serjão, o Bebeto é gente fina, meu!
- EUVÔMATÁELE!
Não mataria. Serjão era um sujeito bastante pacato e o Bebeto um piadista e gozador, tipo do cara das tiradinhas espirituosas.
( *** )
Ficaram sem se falar por muito tempo. Se um estava no bar e o outro chegava, dava um jeito de sair dali, ir pra outro lugar. Se se cruzavam na rua, ignoravam-se. Bebeto morrendo de medo.
As pessoas ficaram chateadas, mesmo sabendo que, seja lá o que foi que Bebeto fez, talvez não fosse para tanto. Caramba, ele era um cara que costumava pagar cerveja e bebidas para quem não tinha grana, fazia os outros darem risada. Não deve ter sido grave. Mas, vai lá, o Serjão é que sabia o que aconteceu.
Bebeto morrendo de medo, mas boiando completamente na história. Chegava a se questionar:
- Eu sou o maior filho da puta. Se o Serjão me detesta, alguma coisa eu aprontei.
Só não sabia o quê.
Eventualmente os colegas e chegados tentavam ajudar a superar a situação, faziam manobras para reatar a velha amizade entre os dois (ex-) colegas, mas nada funcionava. Só o tempo, mesmo.
(***)
Passaram-se uns 4 ou 5 anos.
Certo dia ( ou melhor, noite ) eles acabaram se falando. Se encontraram num lugar qualquer, talvez um desses postos de conveniência 24 horas. Serjão chegou com sua turma, Bebeto já estava ali há horas com outras pessoas. Aos poucos, a quantidade de pessoas foi diminuindo, só os mais bebuns ou menos comprometidos com outras atividades fora dali foram ficando e assim a noite foi passando. Mais cerveja, sim?
A certa altura, Serjão rompeu o silêncio e perguntou de modo bastante calmo pro Bebeto:
- Por quê é que você foi falar aquilo, meu? Que foi que eu fiz para você?
Obviamente foi um peso que saiu do ombro de ambos. Bebeto teve, finalmente, a chance de saber: "Falei o quê e pra quem?"
Serjão respondeu sem rodeios:
- Você disse pra Janaína que eu tinha AIDS...
Estaria Bebeto gozando de boas faculdades auditivas?
- Eu disse o quê? QUEM FALOU ISSO?
- A Janaína.
- Eu...eu quase nem falei com ela naquela noite. Você passou o tempo todo xavecando ela. Se foi uma ou duas palavras foi muito, Serjão.
Bebeto começou a travar outro de seus diálogos internos, tentando sinceramente - e rapidamente - rememorar ou re-vivenciar os fatos daquele dia - ou melhor, daquela noite. Apesar do o consumo de álcool nessa noite e na noite em questão ter sido bastante alto:
"FALEICOMAJANAÍNAOQUÊ?NEMFALEICOMELADIREITOQUANDOEUPUDETERFALADOISSOEUNUNCAFALEIISSONUNCADISSEUMABOBEIRADESSASMEUDEUSCOMOESSAHISTÓRIAPODETERSURGIDOASSIM?EUNEMCONHEÇOOSERJÃOOSUFICIENTEPARASABERDISSO,SEFOSSEVERDADE.ESEFOSSEEUNÃOIASAIRPORAÍESPALHANDO."
Mas, no meio desse esforço, algo surgiu.
- PUTA QUE PARIU, SERJÃO! JÁ SEI O QUE ACONTECEU, CARALHO!
Como por milagre, a explicação apareceu, e nem foi preciso muito para entender que foi exatamente aquilo que acontecera. Puta, que alívio!
- Foi assim, Serjão. Lembrei agora. Putaquemerda. Olha só.
Em dado momento da fatídica noite, Janaína chega para Beto e aponta para um copinho de plástico cheio de cerveja.
- Posso?
Olha, pode - respondeu Bebeto. Mas eu não recomendo.
Por quê?, assustou-se Janaína.
A resposta de Bebeto, o tal das tiradinhas humorísticas, foi um primor:
- É que o dono desse copo tem AIDS...
- Éééémesmo?
... e fui eu que passei para ele..., completou Bebeto, com um sorrisinho.
- Ai, créédo, disse Janaína, deixando o copo sob a mesa.
Aí, Bebeto foi cuidar da sede, sem se dar conta de que o copo que Janaína pediu ERA DO SERJÃO, que tinha ido ao banheiro. Ela sabia a quem pertencia o copo, só que BEBETO NÃO. Ele pensou que o tal copo estivesse ali abandonado, sem dono algum. Aí, fez uma piadinha com Janaína.
Janaína levou a piadinha a sério e, depois, revelou a Serjão que ficou sabendo de seu "segredo", e que fora Bebeto quem lhe contou, instantes antes. Foi o que suscitou a fúria psicótica em Serjão com o conseqüente desenrolar dos fatos como contamos acima. Evidentemente, Serjão não conseguiu ter nada com Janaína, foi para casa com as mãos abanando e louco de vontade de matar aquele cara.
(***)
- Entendeu, Serjão? Cara, meu, foi isso. A mina entendeu tudo errado. Foi um mal-entendido, meu. Todo esse tempo, essa história rolando, eu não sabia de nada. Morria de medo de levar porrada.
- Nada, Bebeto, eu que tinha medo, você com esses dois metros de altura. Eu ia apanhar.
Alívio geral. Tudo esclarecido. Tão simples que dá raiva de ver esse tempo todo que passou, com essa questão em aberto. Esse mal-entendido. Será que a burra não percebeu, ou não atinou, que, se fosse verdade aquilo, o PRÓPRIO BEBETO ESTARIA COM A DOENÇA?
(***)
- Bebeto?
- Quié, cara?
- Sabe que você me salvou?
- Eu? Por quê?
- Ah, meu, a mina era a maior baranga! Você me fez um favor.
- A-hãnn...
Era uma piada, claro. Só que, dessa vez, todos entendiam isso.

MORAL DA HISTÓRIA: Evite fazer piadas non-sense, ou razoavelmente sofisticadas a bebuns ou pessoas burras.
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