sábado, 7 de janeiro de 2012

"Isso é Brasil!"

Lendo aquelas colunas de leitores dos jornais, é fácil constatar: expressões como "Isso é Brasil!" ou "Só no Brasil!" sempre vêm precedidas ou sucedidas por quantidades industriais e palpáveis de merda pura.
A TIA DA BANCA E O "ISSO É BRASIL!"
Um de meus esportes prediletos é filar capa de jornal. Um dia destes, estava fazendo isso numa revistaria instalada num desses hipermercados paulistanos e minha atenção foi roubada por um gritalhar infernal: um sujeito vociferava, altos brados, com a mulher da banca.
O cidadão não se importava em chamar a atenção. Sua tonitruante voz conseguiu, por um breve momento, superar o som de centenas de pessoas que passavam ali: "ISSO É BRASIL!!"
"Que que foi, Dona Maria?", perguntei à senhora da banca.
Na verdade, eu vi o que ocorrera. Presenciei tudo. O cara veio comprar um insignificante maço de cigarros ( média de preço de R$ 4,50 e lucro de não mais que 5 por cento ) e apresentou uma nota de 50 reais. Como ex-jornaleiro, sei bem qual é. O camarada pega 50 ou 100 reais no banco e, em vez de pedir pra casa bancária arrumar-lhe notas de menor valor, ele se dirige a um pequeno estabelecimento e faz uma compra ridícula só pra trocar a grana. Se o comerciante se recusa, a besta vem com um discurso esquálido de "direito do consumidor", como se dentro dele morasse um adEvogado. Dentro dele tem é outra coisa.
E foi isso que ocorreu. A mulher disse-lhe que não havia como trocar aquela nota, o camarada perguntou se podia pagar com cartão, ela respondeu que não ( pois a operadora cobra uma taxa equivalente - quando não maior - ao lucro, pela operação ) e o babaca ficou puto. Aí foi dar uma de coroné, tentando intimidar a senhora. Ela limitou-se a responder "tá bom...tá bom...tá bom":
- PORISSOESSEPAÍSÉESSAMERDA!
- Tá bom...
- NÃOTEMPROFISSIONAL!!
- Tá bom...
- ISSOÉBRASIL! URRRGH!
- Tá bom...
Por causa de uma merda de maço de cigarro o cara optou por fazer um escândalo. Mas ele estava certo. "Isso", seja lá o que for, é o Brasil. Aqui se grita com quem não se conhece, se desrespeita, se agride gratuitamente. Quem compra sempre tem razão. Só na hora de enfrentar o poder dos bancos, da grana, é que se baixa a cabeça. Troco? Não, o banco não é obrigado a fornecer, o Pão de Açúcar não é obrigado a trocar. O quiosque é que é obrigado a trocar nota de 100 ou 50 reais. Mas isso não impediu o bostão de fazer um discurso pseudo-indignado permeado por frase-feita e lugar-comum.
- E aí, Dona Maria, a senhora não pensou em responder mais duramente?, perguntei.
- Pensei - ela respondeu - em tirar minha peruca.
Ela faz tratamento contra um câncer agressivo e trabalha para não ficar em casa, entregue e deprimida.
O PROBLEMA DO TROCO
Um maço de cigarros custa, na média, cerca de R$ 4,50. Se o comerciante que vende este produto tivesse a OBRIGAÇÃO POR LEI - muitos alegam que tal obrigação existe e está no "direito do consumidor ( sic ) - de garantir o troco sempre, ele deverá ser sócio da Casa da Moeda. Se ele vendesse algo como 100 maços de cigarro por dia, então deveria ter reservado, SÓ PARA AS VENDAS DE CIGARRO, o montante de R$ 45,50 NA MELHOR DA HIPÓTESES, para cada maço de cigarro. Ou seja: deve ter guardado R$ 4550,00 de troco para os fumantes. Evidentemente, ele não trabalha, como no caso da Dona Maria, apenas com cigarros. Ela vende, em média 80 a 100 jornais cujo preço, também na média, é de R$ 1,50. Se ela tem obrigação legal "prevista" no "Direito do Consumidor" de garantir troco para os cigarros, também deverá ter para jornais. Assim, de cara, terá que ter guardado R$ 48,50 para cada jornal de R$ 1,50 que vende. Se são quase 100 jornais/ dia, façamos as contas. Ela tem que ter, debaixo do colchão, R$ 4.850,00 no mínimo, por dia, para garantir ao cliente de jornais de R$ 1,50. Não importa se não é todo mundo que paga jornal com 50 reais. O que importa é a obrigação e o "direito".
Por piores que sejam os políticos do "Isso é Brasil", tenho certeza que nenhum deles jamais pensou em obrigar os comerciantes de qualquer estatura a terem troco e, ao mesmo tempo, tirou essa tarefa dos bancos que é a quem, de fato, essa responsabilidade caberia.

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