quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As ideias do Doutor Sócrates, Por Jasson de Oliveira Andrade

“São-paulino, torci pelo Penta. Era também a minha homenagem ao Doutor Sócrates Brasileiro”.


Mogi Guaçu, SP, 15/12/2011 - O último artigo político de Sócrates, “Alguns sonham, outros não”, publicado na CartaCapital de 30 de novembro, foi muito esclarecedor. Neste texto, o Doutor expõe alguns de seus pensamentos. Como esclareci em meu artigo anterior, ele respondeu a um polêmico pronunciamento do presidente da FIFA, Blattter, e também ao Pelé, que, erroneamente, o endossou. O que se vai ler a seguir são alguns trechos do referido texto. É longo, mas é importante conhecê-los, visto que expõe as ideias do Doutor Sócrates. Vamos ao texto dele.
“Eu tenho um sonho". Essa frase praticamente define a ação do grande líder Martin Luther King (o rei da causa negra, eu diria), que passou a vida lutando pela igualdade de direitos entre brancos e negros nos Estados Unidos, em um tempo que privilegiava o homem branco no transporte, nas escolas, na cidadania. Foi assassinado em 1968 exatamente por lutar pelas conquistas que ele ajudou a serem alcançadas. Com destemor e liderança, enfrentou os maiores obstáculos, insurgiu-se contra a guerra e a discriminação. Marcou época em um período de grandes transformações sociais”.
“O mesmo ano de 1968 ficou marcado pelas manifestações dos estudantes na Sorbonne parisiense, que ergueram barricadas em sua luta por mudanças”. “Nós somos judeoalemães”, era o grito que ecoava; queriam demonstrar que todos somos iguais, sejamos negros, sejamos árabes ou brancos. Esse era o slogan daquela juventude que lutava por liberdade, autonomia e independência. Provocaram muitas mudanças, colocaram de cabeça para baixo qualquer tradição ou vício social. Antes, as mulheres eram tratadas como menores e as opções sexuais como fantoches. Daniel Cohn-Bendit simbolizou aquele movimento. Dani, como todos os outros, também tinha um sonho.”
“Entre os brasileiros encontramos idealistas natos, como Luiz Carlos Prestes, que doou sua vida e até acompanhou a morte da mulher Olga, assassinada em um campo de concentração nazista, por uma causa onde a justiça e a igualdade eram os valores proeminentes. Ou Antonio Conselheiro, líder de Canudos, cuja guerra foi tão bem relatada por Euclides da Cunha em ‘Os Sertões’. Com a gente paupérrima e sofrida pela fome, seca e falta de perspectiva econômica e social, ele criou uma comunidade de pura sobrevivência e que foi esmagada pelo Exército brasileiro. Como se perigosos fossem. O único perigo, como sempre, era o do exemplo que poderiam dar a gente com os mesmos problemas. Eles também sonharam.”
“Inversamente, há poucos dias, o presidente da Fifa veio a público para dizer que não há racismo no futebol e que as agressões que ocorrem dentro de campo poderiam ser resolvidas com um simples aperto de mãos. Uma visão cega e fascista da realidade. Os negros estão expostos na sociedade ocidental desde sempre e isso não desapareceu. A reação foi imediata e o fez recuar, mas um pensamento não desaparece por causa do que provoca. (...) Certamente, os negros de todo o planeta se sentiram agredidos, menos um: Pelé. Que de preto parece ter somente a cor da pele. Ele não só corroborou com a tese de Blatter como acrescentou outras bobagens nascidas de seu pseudointelecto. De uma coisa sabemos de há muito: Pelé jamais sonhou com o que quer que seja”.
Lamentavelmente, Pelé, o maior jogador de futebol do mundo, não tem sonhos no sentido revelado pelo Doutor Sócrates. Já o “Magrão” tinha seus sonhos, que não morreram com ele, em 4 de dezembro de 2011. Acredito que outros levarão os sonhos dele avante. Suas ideias são imortais.
Encerro este artigo, com o pedido que o jogador Walter Casagrande Jr., o Casagrande, ou Casa, que também participou da Democracia Corintiana, junto com o Dr. Sócrates. Ele comentou no programa Arena SporTv, de 7/12, que, hoje, boa parte dos jogadores se comunica com o público, através da internet, utilizando-se o Twitter, o Facebook e outros meios modernos. Casa lamentou que essa geração de jogadores não utilize bem esses meios tecnológicos, como o fez o Magrão no passado. Casagrande afirmou que não se deve “banalizar a palavra”. Deve-se imitar o Doutor, que conscientizava os colegas de profissão e a população brasileira.
Um fato me emocionou: na mesma hora em que o Corinthians conquistava o Penta em campo, Doutor Sócrates era enterrado em Ribeirão Preto. Um torcedor corintiano, no Pacaembú, vestia a camisa, com esses dizeres: “Vai com Deus Doutor. O Penta também é seu”. Esta mensagem refletiu o pensamento dos corintianos. São-paulino, torci pelo Penta. Era também a minha homenagem ao Doutor Sócrates Brasileiro. Além do mais, o irmão dele, o Raí, deu muitas alegrias ao São Paulo.
Jasson de Oliveira Andrade é jornalista em Mogi Guaçu.






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