domingo, 9 de outubro de 2011

Paulo Estânio, sujeito a guincho

Paulo Estânio parou seu carro em frente àquela casa, pois era o único lugar naquela rua onde havia vaga para estacionar. Paulo Estânio poderia ter ido de ônibus ou taxi, mas não quis. Até mesmo a pé podia ter ido, pois não era longe de sua casa. Mas, como sempre, foi de carro. Paulo Estânio vai de carro à padaria.
Pois bem. Descendo do carro, Paulo Estânio notou que a casa era um tanto velha. Um museu destoando das outras moradias do bairro moderno. Havia árvores ressequidas que davam um ar sombrio ao local. Mas estava melhor que outras residências, onde as árvores e plantas foram derrubadas e a área cimentada para dar lugar a vagas para automóveis. Depende o ponto de vista. Paulo Estânio só gosta de árvores confinadas em praças e parques, que aí a responsabilidade pela manutenção e a limpeza ficam a cargo do poder público. Pra isso pagamos nossos impostos.
A casa, voltando a vaca fria, era meio sombria, tinha um aspecto realmente abandonado, pintura acinzentada, paredes descascando, vidraças quebradas e as janelas tinham por trás cortinas pesadas e de cor indefinível. Eram seis da tarde.
Algo destoava naquela casa, a casa que destoava das demais.
No portão, havia um aviso: Não Estacione. Sujeito a Guincho.
Portanto, eram duas as informações contidas no aviso: alguém devia morar lá. Dois: não gostava que estacionassem em seu portão.
Como poderia alguém morar sob aquele monte de tijolos em risco de cair?
Paulo Estânio decidiu que deixaria o carro ali. Trancou tudo direitinho, pois a cidade está cheia de gente má e desonesta, e foi embora. Ia beber de montão.

HORAS DEPOIS...
Horas depois, Paulo Estânio retorna a seu automóvel. Que havia deixado em frente a um casarão sombrio. Paulo trazia Paula, a mina de um amigo dele, mas que Paulo xavecou. Noite divertida, hm?
Paula entrou no carro e, quando Paulo se preparava para entrar, assustou-se com uma voz que veio detrás dele:
- O senhor não teme guinchos?
- IAU!... Digo, o quê? Digo, qu-que-quem é o senhor? Digo... nã-ão, não tenho medo de guinchos.
Diante de Paulo Estânio estava um senhor elegante e muito pálido. Cabelo totalmente penteado para trás, cãs ligeiramente embranquecidas. Vestia preto. Muito elegante. Tom de voz perturbantemente calmo, porém incisivo. Chamava-se Klaus. Paulo engoliu em sêco.
- Mmm... Muito bem, senhor. Nos dias de hojé é difícil encontrar pessoas destemerosas.
- Er, bem, um guincho é só um guincho, né? Não é pra tanto.
- Deveras. Mas vejo que o senhor não respeitou nosso apelo para que não estacionasse. Não teme guinchos, não teme provocar a ira nas pessoas. Não teme desapontar os outros, ou causar-lhes algum dano...
- Bem, é que a casa parecia não ter ninguém morando. É muito velha e caída, digo, carece de alguns cuidados...
- O senhor tem toda razão. Mas não é motivo para ignorar nosso pedido.
Paulo Estânio já começava a se irritar:
- Olha meu chapa, seguinte: eu já tô saíndo, tô com uma mina aí. Não quero perder mais meu tempo, tá bão, sangue bão? Vou nessa!
O senhor elegante levantou, quase imperceptivelmente, uma sobrancelha. Seus olhos avermelharam-se, também levemente. Mas fora isso manteve-se impassível diante daquele petulante.
- Já de saída? Agora que eu ia chamar... o guincho. Guincho, não: guinchos. Pessoas como o senhor precisam de reforço para serem contidos e educados, não é verdade?
- Tá bom, velho. Chama o guincho logo, panacão! Ou "os guinchos", se preferir. Até eles chegarem eu já terei azulado daqui, otário! Vacilão!
- O senhor me entende mal. Quando eu chamá-los, estarão aqui em segundos.
- Putz, que vacilão! Não tem guincho, não tem amarelinho, não tem fiscal nessa porra! Eu faço o que eu quero nessa cidade e nunca fui multado! São Paulo é terra de ninguém! Tô bebaço agora e vou sair dirigindo, meu. E ainda vou fala no celular ao mesmo tempo, seu babaca!
- Isso o senhor diz. Tenho permissão para chamar os guinchos, então?
- Puta, tu é um seboso, heim? "Tenho a permissão...?" Que blablabla! Chama logo essa porra!!! Toma! Quer meu celular pra ligar? Nessa porra de casa velha cê deve usar um telégrafo!!! HAHAHAHA! Seu museusão!
Paula, facinha dentro do carro, cobra:
- E aí, Paulo? Cê vem ou não?
- Calma aí, mina. Tô levando um lero com o mordomo aqui. Ele vai chamar o guincho.
- Putz, que imbecil, retrucou Paula. Deixa ele aí e vamo embora!
- A senhorita carece de modos de dama, diz o "mordomo", dirigindo-se a Paula. Você formam um casal bastante distinto.
- E então?, desafiou Paulo. Vai chamar o guincho ou não? Quer levar porrada?
- Se não tenho outra opção... - suspira o elegante senhor de cãs embranquecidas.
Mas ele não se mexe. Apenas olha para o céu.
- E aí, cadê?, desafia Paulo, de novo.
Klaus o conforta:
- Já estão vindo, não percebe? O som...
- Que som? Sirenes? Ouço nada.
Um leve sorriso de profunda alegria brota no rosto do sr. Klaus. Seus olhos brilham.
- Já estão aqui.
GUI GUI GUI GUI GUI GUI GUI GUI GUI GUI GUI
GUI GUI GUI GUI GUI GUI GUI GUI GUI GUI
GUI GUI GUI GUI GUI GUI
- O quê? Que que é isso? Cadê os veículos? Que som é esse e de onde vem? Que brincadeira é essa, velho bastardo?
- São os guinchos, meu caro senhor. Divirta-se e resolva nossas diferenças com eles. Passe bem.
- QQQ-QUÊ? ONDE?
Paulo olha pro céu. Quando volta seu olhar a Klaus, ele não se encontra mais ali.
- Cadê? Onde cê se escondeu? Sai daí, cachorro!!
Paula grita:
- Vem logo caralho! O céu tá escurecendo! Vai chover. Olha como aquelas nuvens escuras cobrem o céu!
- Nuvens! Putz, caramba, é mesmo. É melhor eu...AAARGHHHHH!
- Que foi, Paulo? Eu falei queAAAAHHHHRRGHH!
Milhares de moregos mordedores, chupadores de sangue humano e portadores de raiva cobrem Paulo e invadem o carro onde está Paula. O casal grita o quanto pode, mas não podem muito.
No interior da casa, Klaus se serve de uma taça de vinho.
GUI-GUI-GUI.
- Sim, Bóris. Detesto gente folgada.

Nenhum comentário :

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

Golpe