domingo, 25 de setembro de 2011

Reflexões acerca de um assunto sério

Que a molecada de hoje tem mais liberdade - pro bem e pro mal - que nós trintões e quarentões jamais tivemos, acho que isso é fato. Professor falava, você baixava a cabeça ou / e tomava reguada de ferro na palma da mão, com a permissão dada pelos seus próprios pais. Você falava qualquer merda em casa e já levava chinelada na boca. Não exigia que seus pais comprassem as coisas. Quando ganhava qualquer coisinha, tinha que ficar grato. De um modo geral, claro, pois obviamente, cada família era uma sentença ( hohoho! ). Quero deixar claro que não estou defendendo agressões contra crianças.

Como as relações famíliares modernas não são exatamente consenso sequer entre os especialistas no assunto, deixo claro que as linhas escritas acima são a pura expressão de meus achismos, impressões e observações. É o que acho, pronto.

Uns 3 dias atrás, um garoto de 10 anos atirou na professora com a arma do pai guarda civil e depois - isso que eu acho insólito - se matou. Ainda não entendi que tipo de crise existencial uma criança poderia ter para romper o limite - natural? - que faz o ser humano lutar até o fim pela manutenção de sua vida, ou se ver abandonado pelo instinto de sobrevivência, sei lá. De um adolescente ou adulto até não surpreenderia, mas repito, de uma criança, um ato drástico e derradeiro desses, não compreendo mesmo. Com 10 anos - penso eu - seria mais fácil ele ter se apaixonado pela professora, e não atirar nela e depois em si. Quem nunca viu casos assim, da primeira paixão de criança?

Mas esse caso deu subsídios para os Datenas fazerem seus comentários e suas gritarias. E suas misturas e confusões, atirando pra todo lado, misturando governos federal com alhos, estadual com bugalhos, municipal com car*&¨% alhos. Um fato como este não mereceria - creio eu, me dêem um desconto - figurar simplesmente nas estatísticas de violência escolar, digo, não como os numerosos casos de agressão, bullying, uso de drogas, coisas desse tipo, sérias, cotidianas e recorrentes. Foi um ato isolado, com uma lógica própria. As próprias declarações e testemunhos mostram que o garoto era pacato, "um doce" e a escola parece ser das melhores. A professora não acreditou que ele tenha sido o autor do ato contra sua vida e talvez jamais saibamos o porquê do ato. Não parecia haver o opressivo clima de tensão que permeia os relatos de quem convive num ambiente escolar violento, aquela coisa que parece roteiro de filmes sobre escolas "barra-pesada", seja onde se localizem, cujos alunos se envolvem em gangs, as adolescentes engravidam, as brigas e mortes pululam, os profissionais escolares temem pela sua integridade e de seus carros, entenderam? Que os ambientes escolares de São Paulo não são nada saudáveis, isso é ponto pacífico, sendo que a profissão de docente se torna a cada dia mais difícil de exercer, seja pelas condições salarias, pela própria violência e falta de respeito, etc..

Mas já ia me perdendo.

Pois bem, um garoto de 10 anos poderia, sim, ter pego a arma do pai, para brincar ou por curiosidade, não para "ser respeitado" e nem por instinto belicista. Isso não faz sentido. Brincar, como aquelas crianças que imitam o Superhomem e pulam pela janela me soa mais provável. Uma tragédia alimentada pela fantasia, mas uma brincadeira mesmo assim. Levasse a arma para a escola e atirasse em alguém por acidente, isso acontece, infelizmente. Não que não já ouvimos falar de casos em que jovens levaram armas à escola para se defenderem ( eis um ponto crucial: quando se brigava na escola, no máximo se pegava um pau, ou uma pedra, não se tentava acabar com a vida do outro ) de algum "Sperg". Chamaria isso de força desnecessária, como ocorre no futebol. Briga de crianças, então, nem se fala: brigava-se pela manhã e à tarde já estavam juntos jogando bola.

Não sei o que mudou. Detesto e sempre detestarei adulto falando que "as crianças de hoje já sabem mais que nós" [ as crianças aprendem com o mundo que se apresenta a elas. Dê-lhes um mimeógrafo e não saberão o que é e o que fazer, até que seja ensinado ], adultos vividos e experimentados: isso sempre me pareceu frase muito agradável aos ouvidos de pedófilos ( "Essas meninas já sabem muito..." ), algo que justificasse certas atitudes por parte dos tarados. E com os pais tratando os filhos como adultos, acho que a idéia se disseminou e se assentou aos poucos, conforme as coisas iam se alimentando. Um "zeitgeist", digamos assim. Sei lá. Claro que falo em relação à sociedade em que vivo, o meio em que convivo [ sei lá como é no interior do Camboja ]. O fato de muitos pais "darem liberdade" extrema aos filhos ( ou seja, torcer para que as crianças cuidem de si mesmas, por conta própria ) chama a atenção, pois os pais não tinham outra finalidade senão zelar pelos seus. Isso quer dizer que o sujeito abdicava da vida pois era socialmente imperativo cuidar da família. De verdade, não no sentido de botar tatuagem no braço com os nomes das crias para parecer um pai ( ou mãe ) responsável, mas sim, abdicando de si por elas. Nada de "baladas e os avós que tomem conta dos netos". Caretice de minha parte? Não sei. Somos relativamente livres até mesmo para tentar uma vida igual a de nossos avós, deixando Deus e outras crenças sérias ou meras superstições de lado, pois liberdade também significa não jogar a culpa em Deus, ou não exigir que Ele faça o serviço que nós devemos fazer. E, sinceramente, menos televisão, videogame, computador e vida virtual também ajudariam um pouquinho, às crianças e aos adultos.

( Fim da parte 1, mas talvez fique só nisso, pois comecei pensando numa coisa e mudei totalmente conforme as palavras saíam; tomara que seja útil a alguém )


PARTE 2: LEMBREI-ME DO QUE IRIA DIZER

Tem gente que se impressiona com tudo. No dia seguinte ao evento acima, sujeito que trabalha comigo disse que sua filha, professora de escola infantil teve uma "crise" e não foi trabalhar. Pelo que sei, ela trabalha em um colégio municipal localizado num "hopeless hungry side of town". Tensão diária, mas pelo relato do pai, ela tem a profissão como um sacerdócio.

Não foi só o caso de São Caetano que levou-lhe àquela "crise". A filha relatou um caso ocorrido na escola naqueles dias, e ele contou-me.

Foi assim ( tirem os cardíacos da sala ):

Criança duns 4 anos pede para ir ao banheiro. Professora permite, mas não pode se ausentar. No caminho ele encontra outros 2 garotos, de 5 anos. Passa o tempo, a professora pede pruma espécie de inspetora ver a razão da demora do pequerrucho. Chegando nos sanitários, ela escuta uma risadaida doida.

O colega perguntou-me, retoricamente, se eu adivinhava o que eles estavam fazendo.

Nesse ponto da narrativa eu penso: "Puta merda! Dando risadas à toa...? Por ele contar isso pra mim, depois de conversarmos sobre o crime de São Caetano, é sinal de que o negócio era brabo... Já sei! ( mas não vou falar ): eles fumaram maconha no banheiro! Credo!"

Mas ele concluiu ( tcha-raaammmm!! ): os garotos estavam molhando bolotas de papel higiênico e jogando no teto do banheiro. E arrematou, moralisticamente: "Com quem eles aprenderam isso?". Conheço-o razoavelmente bem, a ponto de dizer que ele já devia a resposta ( talvez achasse que o PCC influenciou seus modos ), mas não perguntei, pois NÃO ME INTERESSAVA. Apenas encolhi os ombros. Então respondi na defensiva, de modo a não estender ainda mais aquele assunto, ainda com os ombros encolhidos: "São crianças...". Tipo "o que você fazia quando era criança?"

Esse mundo está sério demais para mim. Mídia transforma crianças de 4 a 12 anos que praticam pequenos roubos em quadrilhas aterrorizantes, crianças não podem jogar papel molhado no teto do banheiro da escola. Passei, meu.

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