segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Jaz São Paulo: vermes querem que o pedestre seja multado. Morram, lixos malditos! ( E mais: "O totem do Capital" )



O bom de você não ser politicamente correto, é que você pode botar um título como este sem medo de perder leitores ou coisa que o valha. Se acreditamos no que pensamos, temos obrigação de dizer e escrever, sob o risco de desenvolvermos uma úlcera. O ruim é que não encontro - não que não exista - maneiras de demonstrar todo o desprezo que tenho pelas vidas destas pessoas. Por sua mesquinhez e entrega total ao que já foi chamado uma vez de "totem do capital" ( Edição 441 da rev Carta Capital, Abril de 2007 ). Elas simplesmente nasceram em um mundo em que possuir um automóvel faz parte de todo o sonho de vida de alguém, sem questionamentos. Se, imagino, ao surgirem os automóveis, surgiram também as primeiras críticas e resistências tanto ao veículo quanto ao futuro que se desenharia quando estes passassem a rodar cada vez mais nas cidades, com o passar do tempo, as comunidades foram se acostumando a eles. Ao barulho, a poluição e, pior, ao ritmo. Se eu soubesse desenhar direito, pensei num cartoon que aludiria ao filme Tempos Modernos do Chaplin, só que tendo os carros como ameaça. Veja você que todo seu ritmo de vida é ditado pelos automóveis, bastando para isso sair portão de casa afora. Você tem que ter permissão para andar, para caminhar, quando e onde, e qual tempo levará para atravessar a rua. A necessidade da permissão não existe formalmente, mas na prática. Você tem um tempo exíguo para cruzar de calçada para calçada e, se demorar, terá que sair correndo, em vez de ter o tempo para atravessar NO SEU RITMO.

São décadas e décadas e muito deve ter se falado e discutido sobre o papel do carro na vida urbana e isso deve ter em algum lugar, mas não me disponho a procurar ( O que me interessa saber, no momento, é como ele, automóvel, fez para que as cidades tomassem o rumo que tomaram, em termos geográficos e de distribuição e uso dos espaços. Mas não quero nada acadêmico. Quero leveza e praticidade. ), pelo menos não agora. Sei que quando surgiram eram brinquedos para ricos exibirem. Depois, tornaram-se populares. Com a Crise do Petróleo, os antigos automóveis bebedores tiveram que ser substituídos por modelos mais econômicos. Mas as cidades não mudaram. Continuaram dando a prioridade ao transporte individual. Viadutos, avenidas, marginais. Cimento e concreto. As casas que vejo, atualmente, comportam vagas para até três carros. Derrubam as casas velhas, aquela que ainda possuiam jardins, árvores e flores ( logo, "terra" ), botam cimento por tudo, impermeabilizam tudo, e ajudam a inundar a cidade, além de prejudicar o ar. Depois, ficam querendo que a Prefeitura gaste nosso dinheiro de impostos para construir parques e reclamam que "não há verde na cidade". Muita hipocrisia, vê-se.

Um apartamento ou casa sem vaga ou garagem têm preços menores. As pessoas simplesmente não concebem não comprar um carro na vida. Fora de cogitação. Comprometem a quase totalidade de seus orçamentos para isso, e não é por uma questão mera de transportar corpos. Ou, como dizem alguns cínicos, compraram o carro para ir trabalhar. Oras, que desprendimento... Meu trabalho não merece que eu faça este esforço. Talvez eu deva mudar de trampo.

COM RELAÇÃO AO ASSUNTO DO POST

Um jornal de bairro fez uma enquete e sua conclusão é:

"Povo acha que pedestre deve ser multado"
Ultimamente as campanhas para os pedestres respeitarem a sinalização têm sido intensificadas. Junto com as orientações, a Prefeitura iniciou pelo Centro da cidade e região da Paulista uma fiscalização mais ostensiva para multar motoristas que desrespeitam os pedestres ( 1 ). A medida fez com que surgissem condutores defendendo também a punição de pedestres que ignoram a sinalização na hora de atravessar as ruas ( 2 ). A Pesquisa da Semana foi às ruas apurar junto aos leitores e constatou que 90% dos entrevistados aprovariam a criação de multas para os pedestres. No site www.ipiranganews.inf.be apenas 69,60% são favoráveis a punição. Já no www.jabaquaranews.inf.br 28,6% não concordam com a medida.

( 1 ) A tal campanha demagógica da Prefeitura paulistana que parece ter feito de propósito, só para jogar os motoristas contra os pedestres. Aliás, parece ter surgido uma nova classe ( "tribo", diria alguma reportagem da Globo ), a dos pedestres. Os pedestres existiriam em função da existência do automóvel e em oposição a este, e não por ser, na verdade, a própria natureza do ser humano.

( 2 ) Ainda que eu duvide dos números, não posso deixar de dizer que, após o surgimento disso tudo, comecei a ler nas famigeradas seções de cartas de leitores nos jornais e revistas mensagens que vão nesse mesmo sentido, o de fiscalizar o pedestre folgado. A Prefeitura irá fiscalizar as calçadas impraticáveis de São Paulo? Não. Irá triplicar o número de amarelinhos como é clamorosamente necessário? Claro que não. Irá botar amarelinhos para fiscalizar os carros que ocupam as calçadas impraticáveis de São Paulo e obrigam o pedestre a andar pelo meio da rua por um motivo ou pelo outro? Irá fiscalizar as ruas cujo trânsito é local, e que recebem todo tipo de barbaridade cotidiana contra o caminhante, às vistas e conhecimento de todos os paulistanos? Reduzirá a velocidade máxima nestas vias? Não, não e não. O resultado prático é que o motorista atavicamente mau caráter paulistano começará a enxergar o pedestre como um privilegiado, não obstante o espaço nosso se reduzir a cada dia, exatamente para acondicionar os milhares de carros que saem das montadoras todo mês.
De resto, fiquem com o zurrar dos vermes que acham que a Prefeitura deveria julgar diferentes como iguais, humanos como automóveis. Que acham que o ser humano deve se submeter à uma lógica da "lei de trânsito". E vejam porque, definitivamente, São Paulo não tem mais solução: 

“Sou favorável a multa para os pedestres que não obedecem. A lei tem que ser igual. Muitas vezes o motorista tem responsabilidade nos acidentes, mas se o pedestre infringir as normas de trânsito vai contribuir para que o acidente aconteça”, Jucilene Soares, 21 anos, vendedora.

“O pedestre que ultrapassa uma via fora da faixa de segurança está desrespeitando as normas de trânsito e pondo em risco além da segurança pessoal a de outros como os motoristas. Consequentemente esse pedestre tem de ser multado” Paula Francine, 31 anos, pedagoga ( que jamais botaria as mãos em filho meu, pra não ensiná-lo errado ).

“Para disciplinar o trânsito o pedestre e o motorista têm que obedecer as leis. Pintamos o motorista como vilão, mas muitas vezes ele é vitima de imprudências de pedestres. A responsabilidade tem que ser atribuída a todos, motoristas, pedestres, motociclistas e ciclistas”. Rui Silva, 31 anos, administrador.

“Sou motorista e nunca me envolvi em nenhum acidente, uso sempre os princípios de direção defensiva, mas antes de ser motorista, sou pedestre, costumo atravessar só na faixa de segurança e transitar sempre nas calçadas ( anta ao quadrado!! Que calçada, sua mula? ). A multa seria uma ótima ideia”. Tatiane Pires, 45 anos, comerciante.

“Acho que sim, a regra deve valer para os dois lados. Se o motorista causa perigo ao pedestre ao invadir a faixa, o pedestre também causa perigo ao motorista quando atravessa em um lugar indevido. E tem muito pedestre que não está nem aí, as vezes a faixa está perto dele e mesmo assim ele atravessa fora dela”. José Shelton da Silva, 25 anos, artista plástico.

“Tem muitos lugares que faltam faixa de pedestre, por esta razão não concordo com a multa. Eu mesmo atravesso fora da faixa, por falta de opção as vezes. O que eu acho que deveria ter em São Paulo era mais faixas e lombadas, para os carros diminuirem a velocidade e dar segurança ao pedestre”. Adailton Silva, 29 anos, auxiliar de limpeza.

“Para mim os direitos ( sic, que asno! ) devem ser iguais. Se os motoristas estão sendo multados por desrespeitarem os pedestres, o mesmo deveria ocorrer do lado contrário. Se o certo é atravessar na faixa e aguardar o farol de pedestre, então temos que incentivar as pessoas a fazerem isso”. Pedro Xavier, 45 anos, pintor.

“Se existe a lei para um, deve existir para os outros. Em muitos acidentes também existe o erro do pedestre que atravessou errado ou não respeitou uma sinalização. Vejo muitos pedestres que não respeitam as sinalizações por conta da pressa de pegar um ônibus ou de chegar no trabalho.” Ricardo Santos, 46 anos, zelador.

PS: Uma coisa que acho bastante irônica a respeito da cultura que envolve os carros, é que o pai adora ensinar o filho a dirigir, antes mesmo do pirralho ter idade para isso, já treinando o moleque para galinhar. Mas se recusa a fazer o mesmo pela filha, para evitar que ela saia galinhando por aí.

O totem do capital

Por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

O automóvel é um dos propulsores do desenvolvimento contemporâneo, mas a paixão desvairada por ele ameaça a natureza e a civilização.

Assim como os antigos sacrificavam colheitas, gado e até os filhos a ídolos e ícones aos quais seus sacerdotes atribuíam poderes imensos e uma profundidade insondável, a humanidade da era industrial sacrifica tempo, espaço, riquezas naturais e, às vezes, as próprias vidas a essas máquinas às quais os publicitários atribuem virtudes igualmente mágicas. Até as guerras empalidecem ante as estatísticas do trânsito, sem que isso inspire tanto horror quanto seria de esperar. Trata-se de sacrifícios humanos socialmente aceitos.

No mundo, os acidentes matam 1,2 milhão de pessoas por ano e ferem ou incapacitam outros 50 milhões. O custo material dessas tragédias é 518 bilhões de dólares por ano – 65 bilhões só nos países periféricos, mais do que recebem em ajuda externa. Segundo a Organização Mundial da Saúde, são a segunda maior causa de mortalidade global dos 5 aos 29 anos (depois das infecções respiratórias para as crianças e da Aids para os jovens) e a terceira dos 30 aos 44 (depois da Aids e da tuberculose). Nos países ricos, são a primeira causa até os 44 anos.

Do espaço disponível nas cidades dos EUA, 43% destina-se a ser usado não por seres humanos, mas por seus ídolos e algozes mecânicos: 33% para ruas e avenidas, 10% para estacionamentos. Considerando que há nesse país 770 automóveis por mil pessoas, pode-se dizer que cada carro dispõe de mais espaço para se movimentar do que cada pessoa dispõe para descansar, divertir-se, trabalhar e guardar o restante de suas posses. Como se chegou a isso?

Como atestaram o conto Mecanópolis de Miguel de Unamuno, em 1913, e a peça Robôs Universais Rossum, de Karel Capek, em 1921, assim como os filmes Metrópolis, de 1927, Alphaville, de 1965, Matrix, de 1999, e Eu, Robô, de 2004, o imaginário da civilização industrial é assombrado com cada vez mais freqüência pelo vago temor de máquinas a dominar ou a substituir a espécie humana.

Na maioria das vezes, tais máquinas são imaginadas como robôs ou andróides invencíveis ou como computadores de inteligência sobre-humana. Entretanto, na medida em que essa ansiedade responde a algo de real, não se trata de verdadeiras máquinas autoconscientes, mas sim da característica do capitalismo de estabelecer relações de produção não de ser humano para ser humano, como nas antigas sociedades escravistas e feudais, mas por meio de objetos – de mercadorias cobiçadas como símbolo de status a máquinas usadas na produção.

Assim como certas religiões transformam simples objetos – estátuas, símbolos, livros – em fetiches e ídolos com vontade e poderes próprios, o mesmo faz o capitalismo. O fetichismo ou personalização da mercadoria, núcleo do primeiro capítulo de O Capital, certamente não está entre os conceitos de Marx que se tornaram obsoletos. O mesmo pode-se dizer de sua contrapartida, a destituição do ser humano de si mesmo, sua coisificação: são tendências hoje muito mais irresistíveis do que eram em 1867.

Cada vez mais, o operário trabalha não para um patrão humano, mas para uma empresa impessoal que não parece ser mais que um capital, um amontoado de máquinas e outros ativos. Segundo o jornalismo econômico, decisões econômicas que podem conduzir uma nação inteira ao crescimento ou ao colapso não são tomadas por banqueiros e investidores poderosos, mas por um misterioso conjunto de papéis, telas e computadores chamado "mercado".

Mais ainda, a se acreditar nos publicitários e nos gurus da auto-ajuda e da "psicologia evolucionária", o desejo é condicionado – não pela sociedade, mas pela própria natureza – a reagir menos às características físicas, afetivas e sociais do parceiro que às suas posses materiais.

O popular psicólogo David Buss é um desses que dão verniz científico ao senso comum das classes médias condicionadas a competir e consumir – mais precisamente, dos universitários estadunidenses que respondem às suas pesquisas. Afirma que as mulheres, de qualquer classe e cultura, valorizam em primeiro lugar as boas possibilidades financeiras do parceiro. Ou, como dizem portadores da mesma síndrome em terras bandeirantes, "quem gosta de homem é gay, mulher gosta é de ‘karatê’ – cara ter poder, cara ter dinheiro, cara ter carro".

Como o poder só se faz evidente nas celebridades, como o saldo bancário não vem escrito na testa, como as roupas e os modos são indicadores cada vez menos confiáveis de condição social, o carro passou a ser, por excelência, o atestado visível e móvel de classe e riqueza – e, ao menos na fantasia de seus donos, também de direito ao amor, ao respeito e à inveja do próximo. Desde as primeiras transmissões de tevê e os primeiros salões de automóvel, os publicitários associam sistematicamente automóveis a belas modelos. A ponto de que, para o paulista, uma mulher desejável é uma "máquina" – um carro, é claro. Se for muito desejável, um "avião" – luxo para poucos, admite-se com um suspiro.

No início da genealogia da cultura de ansiedade a respeito das máquinas talvez se possa pôr O Homem de Areia, de E.T.A. Hoffmann. Escrito em 1816, inspirou um famoso ensaio de Sigmund Freud, O Estranho (Das Unheimliche), e foi considerado o primeiro conto de ficção científica da história por Isaac Asimov, o autor dos livros que inspiraram Eu, Robô.

Um professor de Física apresenta a filha Olímpia aos alunos. É bela, canta bem e presta muita atenção ao interlocutor, sem bocejar ou dar qualquer sinal de tédio ou distração. O olhar é vazio e a fala escassa – seguidos "ah, ah", de concordância, no final, um "boa noite, querido" –, mas isso deixa o protagonista ainda mais cativado por tal alma misteriosa e profunda, única a compreender seus sentimentos e elucubrações e aceitá-los sem restrições. Mas a amada vem a ser apenas um autômato – um robô, diríamos hoje – e a descoberta o leva à loucura.

No conto de Hoffmann, só o romântico e perturbado Natanael se deixa seduzir pela máquina. Os colegas são iludidos pela aparência de vida e vêem a beleza, mas a aparente estupidez e inexpressividade os mantêm a distância e sua estranheza os amedronta. Hoje, ao contrário, unheimlich é não se deixar seduzir, não lutar pela(s) melhor(es) máquina(s) que a renda familiar permita manter.

Resultado: do consumo de petróleo nos países desenvolvidos, causa principal do aquecimento global que ameaça o equilíbrio ecológico e o futuro da civilização, os veículos representavam 42% em 1973. Em 2000, sua participação havia aumentado para 58% e essa porcentagem tende a aumentar. Hoje, o consumo de petróleo na indústria e na geração de eletricidade é relativamente estável e a maior parte do crescimento da demanda está relacionado aos transportes. Não se trata apenas da operação do veículo propriamente dita: esta representa dois terços do consumo, mas outro terço está relacionado à fabricação e manutenção dos veículos e à construção de infra-estrutura (ruas, estradas, estacionamentos, postos de serviços) para possibilitar o seu uso.

Na maior parte (85%), isso significa transporte sobre pneus: ferrovias, navios e aviões representam só 15%. Por trás da magia dos fetiches e do discurso publicitário da elegância e da aerodinâmica, o automóvel é um meio de transporte extremamente ineficiente. Apesar dos aperfeiçoamentos introduzidos desde o choque do petróleo dos anos 70, só 12% do combustível produz movimento útil. O resto é perdido pelo sistema de refrigeração do motor ou desperdiçado em escapamento, freagem ou atrito no motor, transmissão e eixos. Da energia posta em movimento, talvez 5% a 20%, dependendo do veículo e da ocupação, é para transportar pessoas e seus pertences: o resto movimenta a própria massa do carro. Noves fora, um carro é 1% transporte e 99% desperdício e exibição.

Em sua primeira visita à Terra, um extraterrestre pouco sofisticado poderia julgar que o automóvel é a espécie dominante do planeta e que os humanos são seus escravos, sem fazer muita distinção entre culturas. Na verdade, há graus de devoção: europeus e asiáticos são mais comedidos. Satisfazem-se com carros menores e investem muito em transporte coletivo, criando e mantendo eficientes e velozes trens de passageiros e amplas redes de transporte metropolitano.

Já os americanos – estadunidenses, sobretudo, mas também os brasileiros mais remediados – entregam-se ao culto sem reservas e procuram reprimir as heresias. Salvo por melancólicas estações de subúrbio, os trens de passageiros foram abolidos ou relegados a museus. Os metrôs, quando existem, são embrionários.
Mesmo o transporte público sobre pneus é lento, precário, como se fosse o caso de condenar ao inferno aqueles que não pagam o dízimo à verdadeira religião. Nos anos 90, o tempo médio em uma viagem de casa ao trabalho era de 51 minutos no Rio de Janeiro, ante 36,5 minutos em Nova York e 35 em Paris, mas para muitos dos mais pobres, o suplício dura, ainda, até três horas. A classe média motorizada escapa dessas penas mais cruéis para o purgatório dos engarrafamentos e rodízios. O céu, claro, é dos ricos e de seus helicópteros.
O carro pode ser uma fantasmagoria enquanto corporificação de impulsos eróticos desviados e a suposta liberdade de movimento que promove é desmentida a cada semáforo e a cada congestionamento. Entretanto, seus efeitos destrutivos sobre a natureza são bem reais. Como também seus efeitos construtivos em relação ao capital. Do fim da Primeira Guerra Mundial aos nossos tempos, a história do capitalismo pode ser dividida em dois períodos: a era do fordismo e a do toyotismo.

Nos anos 20, Henry Ford provocou a maior revolução nos métodos de produção, gestão e regulação do capitalismo desde a invenção da máquina a vapor. A organização racional do trabalho, com otimização e controle minucioso dos tempos e métodos gastos em cada operação, havia sido proposta e implementada pelo engenheiro Frederick Taylor em 1911, mas dependia muito de fiscalização e supervisão por intermediários. De um só golpe, a linha de montagem de Ford deu forma material e objetiva ao controle e o tornou praticamente automático. Em vez de ser simplesmente apressado pelo contramestre, o operário tinha de correr para acompanhar o ritmo da esteira, como Carlitos em Tempos Modernos.

Ford não se satisfez com o controle absoluto do processo produtivo em suas fábricas: pretendeu também moldar a sociedade e em certa medida o conseguiu. Para viabilizar fábricas na escala necessária para produzir automóveis em ritmo de linha de montagem, abriu mão do controle direto pessoal do capital e deu impulso à multiplicação das sociedades anônimas que na época ainda eram exceção, mas hoje respondem pela maior parte da economia.

Enquanto o aumento de produtividade reduzia o preço do produto, Ford conscientemente melhorava a remuneração de seus empregados em relação aos padrões da época e os incentivava a adquirir seus automóveis, dando a partida ao modelo de crescimento que respondeu pelos "anos dourados" do capitalismo do pós-guerra ao se espalhar por todo o mundo industrializado ou em vias de industrialização, uma vez que os governos compreenderam a natureza do novo processo e começaram a aplicar as ferramentas keynesianas adequadas à sua coordenação e regulação em escala nacional.

Na versão tropical desses já velhos bons tempos, Juscelino Kubitschek fez o Brasil mergulhar de cabeça na revolução fordista. No início dos "50 anos em 5", havia apenas um punhado de veículos importados e uma só estrada asfaltada de extensão razoável, a via Dutra. Ao final, várias montadoras estadunidenses e européias estavam instaladas no ABC paulista, cujos produtos podiam, bem ou mal, rodar o país de Belém ao Chuí. Entretanto, as ferrovias, embora tivessem ainda destaque em seu Plano de Metas, foram praticamente abandonadas – e a ditadura militar não fez mais do que aprofundar esse modelo montado, no qual o Brasil se tornou o maior pólo industrial da América Latina, deixando para trás pioneiros como o México e a Argentina.

Nem todas as idéias de Ford foram igualmente bem-sucedidas. Com o objetivo de eliminar a embriaguez, reduzir as faltas ao trabalho e aumentar ainda mais a produtividade, deu um apoio à proibição do álcool que foi decisivo para a vitória da Lei Seca, mas o resultado, como se sabe, foi uma catástrofe social. O excesso de puritanismo de Ford foi-lhe contraproducente também em outros aspectos. Por ver o carro sob o aspecto funcional, e padronizar ao máximo para baratear seu custo ("Você pode ter seu modelo T de qualquer cor, desde que seja preto"), deixou de explorar todo o potencial do automóvel como símbolo de distinção social e fetiche erótico. Coube à General Motors descobrir esse filão e tomar a liderança.

Ainda assim, Ford fundou a sociedade de consumo. Se Lenin foi um grande admirador de Taylor, Stalin teceu elogios ainda maiores aos métodos de Ford. O escritor Aldous Huxley chegou a imaginar que a revolução fordista duraria para sempre e acabaria por absorver tanto o capitalismo liberal quanto o socialismo: seu Admirável Mundo Novo, escrito em 1932, passa-se no ano 632 d.F. (depois de Ford), quando as pessoas, em vez do sinal-da-cruz, fazem um T.

A era Ford, porém, não durou tanto: a partir dos anos 70, o acirramento da competição internacional pôs abaixo o modelo de planejamento em escala nacional, no qual se podia confiar que praticamente todos os aumentos concedidos aos trabalhadores seriam gastos em produtos nacionais e engordariam o lucro e o capital dos seus empregadores. Juntamente com as crises do dólar e do petróleo, também desmontou a expectativa de que a modernização e o crescimento econômico avançariam, qual linha de montagem, em ritmo previsível e planejável.

Voltada para o mercado externo e pronta para reagir imediatamente a mudanças de conjuntura e de preferências, a grande indústria esforçou-se para livrar-se de seus operários, reduzir seus salários e adotar sistemas de produção mais flexíveis e adaptáveis, enquanto governos e organizações multilaterais davam atestado de óbito ao keynesianismo e aderiam ao neoliberalismo selvagem. Mais uma vez, porém, as montadoras deram o mote e o nome à nova fase do capitalismo: trata-se agora de toyotismo. Mudaram os ritos e os profetas, não os deuses.


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