terça-feira, 16 de agosto de 2011

"A Indústria da Multa não Existe" em: Pedestre tem que contribuir, sim, tá pensando o quê?

Sejamos francos: ninguém quer abrir mão do automóvel. Já está mais que cristalizada na cabeça das pessoas a idéia de que o carro é um ítem de primeira necessidade, mais importante que o ar e a água. Alguns inventam a desculpa de que compraram o veículo para facilitar o acesso ao trabalho, e isso é muito nobre, já que estamos falando do famoso castigo bíblico. Assim, o sujeito trabalha para pagar a prestação do carro adquirido para trabalhar para pagar a prestação do carro adquirido para trabalhar etc etc.
Mas ninguém, em sã consciência, deixaria na garagem um bem adquirido a duras penas; portanto, é óbvio que havendo chance de usar o veículo, o proprietário usará o veículo. Não importa que seja apenas para ir à padaria distante 3 quarteirões de casa.
Mas mudando de assunto: já leram certos editoriais e cartas de leitores nos jornais, após a decisão da Prefeitura de multar quem prejudica o pedestre? Digo, essa campanha implantada num quadrado que compreende desde o centro da Capital até a Av. Paulista. Se você furar o sinal vermelho toma multa. Se avançar na faixa do pedestre, toma multa. Os jornais afinaram o côro ao dar as novidades diárias: "As muultaaaaaa...." ( fazer voz de zumbi ). Só falam em multa, parece uma palavra mágica. É óbvio que agindo assim fazem o motorista ficar com mais raiva ainda dos poucos cidadãos que ainda andam, obsoletamente, a pé nesta cidade. Tipo, "porra, já não chega a Indústria da Multa ( sic ) e vem essa Prefeitura favorecer ( sic, sic ) os folgados dos pedestres que se jogam de propósito no meio da rua só pra prejudicar o trânsito na Capital?"
Com esse tipo de pensamento que começa a invadir as conversas cotidianas, não estranhe se, no futuro, algum motorista um pouco mais psicopata do que aqueles que vemos atualmente jogar o carro sobre um transeunte "em protesto" contra a afronta ao direito de ir e vir dos automóveis, cometida pela Prefeitura fascista.
Portanto, caro obsoleto caminhante, você tem OBRIGAÇÃO de fazer algo:
- dê trabalho à CET: se flagrar carro sobre calçada, ligue pra fiscalização; se flagrar carro estacionado em lugar proibido, ídem; ligue, ligue, ligue.
- ande sempre com uma câmera ou celular: se flagrar vagabundo fazendo merda, filme e bote no You Tube. Mande pra todos que conhece, além de sites, jornais, blogs etc;
- deixe de considerar o patrimônio das pessoas algo mais importante que a integridade humana: se vir carros na calçada, em local proibido, coisas do gênero, e der para riscá-lo ou quebrar o retrovisor, causar algum dano, não pense duas vezes: FAÇA! Mas atenção: só em caso de você ter garantias de que não será apanhado. Sabe por quê? Simples: por mais que a gentalha estrebuche, não existe fiscalização em São Paulo, a começar da insuficiência de pessoal. Logo, se você catar um marginal travestido de "cidadão de bem, pagador de impostos" fazendo merda, saiba que ele o faz pela absoluta CERTEZA DE QUE JAMAIS SERÁ APANHADO. Nanoestado é isso.

Já viu aquelas placas que comerciantes cínicos botam na frente de seus estabelecimentos? Elas falam tudo sobre o caráter de quem a coloca ali:

"Srs Clientes

Por favor, não estacione sobre a calçada

SUJEITO A MULTA"

Existe mensagem mais cafajeste? Em primeiro lugar, pro "cliente" ser multado enquanto se encontra nas compras, é necessário o azar de estar passando um "amarelinho" ali, bem naquela hora. Tire isso da cabeça, que não vai acontecer. Em segundo, oras, "sujeito à multa"? Não seria "Sujeito a estar atrapalhando o caminho do pedestre"? Perceberam o egoísmo contido na mensagem? Se não houvesse o risco ( micromínimo ) de ser multado, o cliente talvez pudesse deixar o carro na calçada, se dependesse do comerciante. O pedestre que se lasque. Cada um com seus probrema... E, escárnio total, nem pense em chamar a CET para punir o "sujeito à multa", pois ela não virá. Ou melhor, não chegará a tempo. Então, "sujeito à multa" aplicada por quem?

Veja: se você fizer o que acham que você deve fazer, você chamará a CET e ela aparrecerá apenas DUAS HORAS DEPOIS DA CHAMADA, quando o bandido já foi embora folgadamente, e sem a punição merecida. Oras, o agente do Estado representa um espécie de intermediário entre as demandas das pessoas. Por isso que o cidadão não é obrigado a investigar e fazer cumprir as leis. Esse é o papel do Estado, representado por seus agentes. Isso dispensa a "justiça pelas próprias mãos". Mas a CET, sucateada do jeito que está - para melhor proveito dos cidadãos paulistanos, que fingem uma indignação de fachada - só favorece a bandidagem motorizada.

É por isso que eu não lamento - ao contrário, COMEMORO - os roubos de carros.

- E, finalmente: como já escrevi antes, o respeito ao pedestre começa na porta de casa. Como assim? Bem, é impossível caminhar pelas calçadas de São Paulo. As pessoas constroem do jeito que querem, sob o beneplácito do nanoestado municipal. Não há fiscalização, então o sujeito bota todo o tipo de obstáculo pelas calçadas, para facilitar o acesso de seu veículo à garagem ou vaga de estacionamento.

Se você não quiser quebrar o pé ou torcê-lo enquanto caminha, o jeito é andar pelo meio da rua, cuja superfície costuma ser plana. Mas é arriscado. Então, encha o peito, pegue sua caneta, máquina fotográfica, celular com câmera e documente tudo o que encontrar pelo caminho. Viu calçada com degrau, anote endereço, filme, etc e denuncie - ANÔNIMAMENTE - à Prefeitura ( claro que eu, sinceramente, acho que não existe APENAS uma fiscalização deficiente; acho que há outro tipo de coisa rolando, tipo um fiscal que "olha prá lá", sabe? ); pegue o vídeo e mande pros portais jornalísticos. Dê preferência àqueles em que você não é obrigado a se identificar: duvido que os dados fiquem em sigilo, sobretudo àqueles que você passa à Prefeitura; de repente, você começa a receber ligações estranhas, e entenderá o que estou dizendo. Zele por sua integridade e não entre em confusões.

1984?

Claro que não. Você não está fazendo isso porque acredita no sistema ou no governo. Os carros são o sistema. O sujeito vem com uma conversa fiada de "Indústria da Multa" como se o Grande Irmão o estivesse perseguindo por sua postura "libertária" e "inconfidente", enquanto você tem que desviar, andar pelo meio da rua, olhar pros 3 lados antes de atravessar, correr mesmo se o sinal está aberto para você, entre outras humilhações e riscos. O libertário aqui é você, que não acredita em propaganda do tipo "se eu fosse o último homem da Terra, as mulheres iam ter que dar prá mim de qualquer maneira", como eu vi na TV essa semana.

ESPAÇO

O poder público no Brasil sempre caminhou ( trocadilho bacana, mas involuntário ) no sentido de contemplar a indústria automobilistica e seus clientes. Mais carros nas ruas "obrigaram" os governos a abrir mais espaços para eles, mas a presença de mais pessoas nas ruas apenas restringiu o espaço disponível a elas. Cada milímetro pertencente ao pedestre de que os vagabundos se apoderam é um mílimetro irrecuperável.

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