quinta-feira, 21 de julho de 2011

Aparências

- Anda, filhão, que a gente vai atrasar!! Já pôs?
- Tô indo, pai, calma aí! Tá quase lá!
- Vai logo, garoto!
- Pô, pai, 'cê sabe que eu detesto isso...
- Eu sei, filhão. Mas é prá sua segurança. Prá nossa. Já conversamos sobre isso, mocinho...
- Tabom, tabom. Tô pronto então.
- Dexovê... Ah, tá legal demais!!
- Putz...
- As roupas da filha da Telma caíram direitinho em você. Tá joia.
- Ai, que vexame!
- Vambora, então.
- Tá, vamo.
E saíram. Pai e filho, num passeio familiar amigável, pra matar a saudade. O pai, 42 anos, separado, vivendo com a namorada ( Telma ) e a filha desta, recebe a visita do filho, cuja guarda permaneceu com a mãe, com quem vive noutra cidade.
Mas, como os tempos estão meio esquisitos, tomaram algumas precauções antes de sair de casa: Júnior teve que vestir umas roupas da Roberta, filha da Telma. Um enchimento pros seios, um vestidinho, uma sandalinha e a peruca. Prá todos os efeitos, eram pai e filha, caminhando abraçados pelas ruas da cidade interiorana, pacata mas meio conservadora. Muito agroboy pela área.
- Pai!
- Já vi! Fica calma, digo, calmo!
O moleque abraça mais forte o pai, enquanto aperta o exemplar de Capricho que comprou para deixar o disfarce mais convincente. Logo à frente, um bar, e um monte de caras na porta, mexendo com a mulherada, falando palavrão, essas coisas. Coisa de homem.
- E se eles desconfiarem?
- Não vão. Você tá perfeita.
- Pai?!
- Digo, perfeitO.
Agora não tinha mais como voltar. Pai e filha, digo, filho, passam em frente ao estabelecimento tranquilamente. Ninguém falou nada, só olharam. Tudo correu muito bem.
- Ufaaa!, fizeram pai e filho, ao mesmo tempo.
No bar, um dos caras comenta:
- Coroa papa-anjo. Pegando criança. Ninfeta tem idade prá ser sua filha, pilantra.
Outro responde:
- Que nada, meu. Essas meninas de hoje é tudo safada. Já sabem mais que nós. Não tem mais esse papo de idade, isso é conversa.

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