sábado, 9 de julho de 2011

Análise de esgoto permite mapear áreas de consumo e refino de drogas

Estimar o consumo de drogas ilícitas como cocaína, crack, morfina, anfetaminas, entre outras, não é uma tarefa fácil no Brasil. Atualmente os dados se baseiam em apreensões feitas pela polícia, associados às informações disponibilizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Acredita-se que estas estimativas estejam muito abaixo dos indicadores reais, dessa forma, é necessário desenvolver uma ferramenta rápida, confiável e de baixo custo para saber quanto, onde e que tipos de drogas estão sendo consumidas pela população, instrumentos importantes para subsidiar políticas públicas.
Nesse sentido, o Instituto Nacional de Ciências e Tecnologias Analíticas Avançadas (INCTAA) desenvolve uma ferramenta de mapeamento por meio da análise de esgoto doméstico, sob a coordenação professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e bolsista do CNPq, Wilson F. Jardim. Essa abordagem é inédita no Brasil e começou a ser praticada em alguns países apenas neste século. “É uma excelente ferramenta não apenas para ajudar na repressão ao consumo de drogas ilícitas, mas tem um caráter bem mais amplo e nobre, servindo para nortear programas sociais de reabilitação de usuários, conhecer áreas de maior consumo dentro de um espaço urbano, acompanhar a evolução do consumo e comércio de novas drogas e detectar laboratórios de refino”, explica o pesquisador.
O procedimento se baseia na coleta representativa das amostras de esgoto nas estações de tratamento, dentro de uma janela temporal conhecida. As amostras são tratadas a fim de permitir sua análise por uma técnica instrumental denominada LC-MS/MS, ou seja, cromatografia líquida acoplada a um espectrômetro de massas. A maior contribuição do estudo foi o desenvolvimento de um aparato para a manipulação das amostras com o mínimo de contato humano, diminuindo as contaminações, bem como a estratégia para calcular valores confiáveis.
“ Quando um usuário consome um determinado tipo de droga, a mesma é metabolizada no organismo sendo depois excretada no esgoto. Utilizando métodos e equipamentos de análise muito sensíveis, é possível identificar e quantificar o quanto dos metabólitos e da droga original estão presentes numa amostra de esgoto. Se esta amostra é coletada numa Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), podemos estimar o quanto da droga foi consumida num bairro ou numa região da cidade”, ressalta Jardim.

Área de teste
Em parceria com a Polícia Federal, a Universidade de Brasília e a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (CAESB), os precedimentos foram testados em Brasília para estimar o consumo de cocaína e outras drogas ilícitas. Foram realizadas duas campanhas amostrais, que somados apontaram para o consumo anual de aproximadamente 1,1 tonelada de cloridrato de cocaína. Valor muito superior a estimativa feita por meio de apreensões, que chegam a menos de 400 quilos por ano. A região com maior consumo per capita foi a cidade de Samambaia, seguida da Asa Norte. O consumo médio anual no DF foi estimado em 4,6 doses por habitante.
“Através da análise do esgoto, podemos ver as tendências de consumo em tempo recorde, o que seria de imensa valia para a sociedade. Por exemplo, a explosão no consumo do crack poderia ter sido antecipada há muito mais tempo usando o saneamento forense, permitindo assim que o Estado se aparelhasse e se preparasse melhor para atacar este problema tão devastador”, destaca o pesquisador.
Para Wilson, é importante ressaltar que a pesquisa é limitada por que o saneamento é precário. “A estimativa do consumo de drogas demanda uma malha coletora de esgoto eficiente e abrangente, atualmente, são poucas as cidades brasileiras que poderiam ser mapeadas adequadamente para este fim. Seria necessário um investimento de R$ 15 milhões para termos uma radiografia preliminar do problema nas principais capitais brasileiras. A PF seria um grande aliado para manter esta estrutura de coleta e análise, ao disponibilizar seus laboratórios para suporte, uma vez que atua em todo o território nacional”, finaliza.

História
O interesse pelos contaminantes emergentes em geral surgiu no Laboratório de Química Ambiental do IQ da UNICAMP em 2006, com o início das pesquisas sobre a contaminação dos mananciais da cidade de Campinas por compostos não legislados. Com o INCTAA aconteceu a expansão do programa visando mapear o consumo de drogas ilícitas, atividade pioneira no Brasil. O projeto conta com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCT) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).


Assessoria de Comunicação Social do CNPq

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