segunda-feira, 16 de maio de 2011

Ecce povo: "Classe média brasileira prefere tênis caros a livros", diz famoso escritor

O escritor Pedro Bandeira , autor de obras para o público infanto-juvenil, com mais de 11 milhões de livros vendidos ( ou seja, um cara se sucesso, o que prá muita gente é o suficiente para ver o que ele tem a dizer; as pessoas adoram gente de sucesso, seja em qual campo for ), foi entrevistado pela revista LÍNGUA PORTUGUESA ( Editora Segmento ), onde falou sobre educação, cultura, literatura, carreira, modernidade, essas coisas - e, de quebra, atacou a mesquinhez da classe média ignara. A conversa saiu na edição de Maio da revista, e este blog reproduz duas das perguntas - com as respectivas respostas, óbvio. Parodiando um cara que escreve no Estadão, "PORQUE NÃO ME UFANO DESTA CLASSE MÉDIA":


LP: A educação no Brasil está num patamar aceitável?

Pedro Bandeira: O Brasil talvez seja o único país do mundo em que, se o livro não for recomendado por um professor, o papai, a mamãe ou o padrinho, não o compram para suas crianças. Ainda temos uma cultura ruim, em que os pais não hesitam em comprar um tênis de grife para o seu filho, de R$ 1 mil, mas chiam quando a professora manda comprar um livro de R$ 20. Eles dizem que "não gostam de gastar dinheiro com besteira". Os pais de classe média [ grifo nosso ] ainda acham mais importante investir no pé do que na cabeça do filho (*). Mas, quando eu estudei, só havia vaga para 30% das crianças nas escolas; agora temos vagas para todos. A escola não é espetacular? Não é. Mas não é do dia para a noite que se cria uma escola de excelência. Quando houve a redemocratização, a taxa de leitura do brasileiro era de 1,8 livro por ano; hoje é de 4,7 livros. Estamos caminhando.


LP: Muita gente se preocupa com a influência da internet na linguagem dos jovens. Como o senhor vê essa questão?

PB: Quando eu era menino, havia uma coisa chamada linguagem telegráfica. Telegrama era caro, porque cobrava-se por palavra. Então, já fazíamos uma linguagem semelhante à de computador: você procurava economizar e fazer textos bem curtinhos. Não sei se é ruim. Se o sujeito quiser dizer tudo em poucas palavras, é legal para o treinamento mental dele. O que acontece é que a criança que não lê tem um vocabulário pequeno. Tem uma pesquisa muito interessante de um sociólogo americano, que gravou conversas em muitos lares. Ele concluiu que as mães de classe média falavam com seus filhos seis vezes mais do que as mães pobres ( ** ). Porque a criança mais pobre, mais inculta, tem menos informação vocabular do que uma criança que vive num lar mais culto. O mundo é feito de vocábulos. Se você não tiver um universo vocabular rico, você pensa pior (***).


( * ) Ruim da cabeça; mas o pisante, nos pés.

(**) Rapaz, só se for a mãe pobre americana, pois o que a pobraiada daqui fala e fala e fala não tá no gibi. Falam pelos cotovelos, apesar de dizerem pouco e falarem ao mesmo tempo. Nesse caso eu não tenho muito idealismo sobre as "virtudes" populares. Eu gosto do silêncio.

(***) Lembremos de "1984" e a aniquilação de palavras.

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