quinta-feira, 10 de março de 2011

Incomunicável

Esse termo, se não me engano, aparece com bastante freqüência nas páginas policiais: "Cebolão foi preso e segue incomunicável na carcerágem do 17º.DP". Algo desse gênero.
Mas você não precisa tornar-se hóspede do sistema carcerário para estar ( ou melhor, "ser" ) incomunicável. A bem da verdade, o correto seria "incomunicante".
O "incomunicante" é aquela pessoa dotada da incapacidade de comunicar algo, por mais simples que seja. Não que ele não tente. Só que não consegue.
O incomunicante possui, entre suas diversas características, a mania de empregar uma infinidade de palavras numa sentença, quando apenas "SIM" ou "NÃO" bastariam.
De um modo geral, longe de ser malvisto e execrado pela sociedade, o incomunicante é o sujeito mais socialmente ativo de todos. Por sua vez, as pessoas que não se enquadram na categoria são vistas, injustamente, como chatas, antipáticas ou arrogantes. Se bem que a definição comum de "arogante", se pensarmos bem, é até elogiosa.
Em suma, a sociedade parece preferir as pessoas que falam, falam e falam, quando apenas um "falam" seria suficiente. Pois as pessoas que falam, falam, falam nos fazem perder um tempão, e geralmente não dizem coisa com coisa. É o falar por falar, pelo prazer de escutar a própria voz. Tempo não parece problema para eles, os incomunicantes. O conteúdo, em si, é o de menos. Vejam o exemplo:
- Por favor, tem caneta?
Diante dessa simples pergunta, a melhor resposta seria "sim" ou "não", já que é isso que a pessoa deseja saber. Os "chatos, arrogantes e antipáticos" responderiam dessa forma. Mas o incomunicante...
- Tenho. De que cor?
Arrá. A resposta foi curta. A tese caiu por terra, então?
Não. Ocorre que o "espírito incomunicante" costuma se manifestar na hora de dar más notícias. Veja:
- Olha, acabou, mas é que o fabricante de tungstênio...
Morou? Nem cliente nem vendedor sabem direito o que é tungstênio. O incomunicante, no afã de não desagradar e também para não parecer incompetente dará uma explicação totalmente incoerente pro contexto, mesmo que seja dito algo medianamente acertado. Mas não cabe ali. Sim, o fabricante de tungstênio tá com problemas, mas não precisa ser tão específico assim. Se eu quiser saber sobre este material, procuro no site da Bloomberg ou do Valor Econômico.
O incomunicante, no máximo, poderia dizer "Tá em falta", sem alongar a conversa, enveredando por campos de seu total desconhecimento e domínio. E, mesmo que dominasse, o que o faz pensar que o cliente tenha tal domínio da matéria? Depois de falar no "tungstênio", nosso herói tentará contar a saga do elemento.
O incomunicante é incapaz de interpretar a platéia ou o interlocutor que tem diante de si. Avalia mal, se apavora diante da simplicidadade e da facilidade. Para ele, Garrincha só é Garrincha enquanto dribla um time inteiro duas vezes, antes de empurrar a bola prá fora, de propósito, só para fazer de novo e aí concluir certo. Jogar a bola debaixo de uma fileira de cadeiras e apanhá-la ali na frente é coisa de João.
O incomunicante não consegue ser didático ou informativo:
- Tem caneta?
- Acabou, mas chaga na semana que vem.
Em vez disso, sua índole o obriga a fazer isto:
- A entregadora das canetas pretas teve um acidente com o caminhão, que colidiu com o caminhão de canetas azuis, ontem, em Osasco - diz, aumentando ou inventando completamente a história. Depois, contará a história do caminhão, ou de Osasco, que ele nem sabe onde fica.
Poderia ter dito: "A trasnportadora está sem veículos no momento, e não pôde fazer a entrega nesta semana."
O incomunicante não é, exatamente, um mentiroso, e não faz essas coisas por mal, para tapear ou ser "esperto". É apenas incapaz de escolher o caminho simples, mesmo que este seja o mais adequado.
Faz isso, também, porque morre de medo de parecer incompetente, mau prestador de serviços. Como se o problema com os caminhões da trasnportadora, algo alheio a sua vontade, não fosse a causa da falta temporária de canetas. Mas ele - erroneamente - pensa que, se disser isso apenas, o cliente vai comprar em outro lugar, vai fazer propaganda negativa do estabelecimento, dizendo que o proprietário é negligente, ou coisa parecida. Não que não exista gente assim, claro. Mas se for queimar o filme de todo estabelecimento que lhe causa algum desgosto, esse cliente não terá mais onde comprar as coisas.
Apavorado, o incomunicante prefere, já que não tem a porra da caneta para vender, dar uma explicação supostamente "high-professional", à prova de clientes exigentes e cri-cris. Mais ou menos como é na história da roupa nova do rei, se você der uma explicação obscura e, de preferência, inextricável, o ouvinte vai se achar burro e não fará mais questionamentos constrangedores.

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