segunda-feira, 30 de maio de 2016

Jô Soares e Mara Gabrilli ainda não entenderam o assassinato de Celso Daniel. Por Daniel Lima



Gosto muito do programa de Jô Soares como instrumental de inteligência oral e cênica no mar de quinquilharias da TV aberta. Aprecio as qualidades da deputada federal Mara Gabrilli. Quando eles se juntam, como se juntaram na semana passada, só poderia dar coisa boa. Só poderiam garantir audiência qualitativa.

Mara é tão bem articulada e carismática que dispensa qualquer tipo de apêndice politicamente correto por ser mulher e também porque é deficiente física.

Mara Gabrilli não recorre ao apelo de ser mulher e andar em cadeira de rodas para se fazer respeitada. Bem diferente da presidente que acabou de ser apeada do cargo e que a toda hora, em momentos de dificuldades, apela à salvaguarda de gênero.

Jô Soares já dá sinais de certo cansaço físico como apresentador, mas segue envolvente. Jô Soares cansado é apenas um Jô Soares menos explicitamente genial – mesmo àqueles que não concordam eventual ou sistematicamente com seus posicionamentos. Acompanhar Jô Soares nos supostos acertos e desacertos é sempre um aprendizado.

A entrevista com Mara Gabrilli estava indo tão bem na semana passada que nem os escorregões sobre o caso Celso Daniel podem ser utilizados para desclassificá-los ou mesmo minimizar os atributos do perguntador e da perguntada. Mas eles poderiam ter poupado os telespectadores de desinformações.

É verdade que para quase todo mundo o assassinato de Celso Daniel se encaixa tanto nas declarações de Mara Gabrilli quanto nas assertivas de Jô Soares. Eles, como a maioria dos brasileiros, foram contaminados irreversivelmente por bobagens bem orquestradas -- cujo resumo da ópera é a patetice conclusiva de que se cometeu a idiotice de matar a galinha dos ovos de ouro.

Dois barcos furados
Dois pontos entre muitos que elevam o caso Celso Daniel à enésima potência de especulações foram abordados durante o programa de Jô Soares. Mais uma vez a morte do legista Carlos Delmonte causou estranheza ao apresentador. E as supostas mortes misteriosas de eventuais testemunhas foram questionadas pela deputada federal. Tanto uma situação como outra fazem parte do folclore do assassinato do prefeito de Santo André – o que só confirma a crônica policial de que crimes que envolvem gente famosa ganham multiplicidade de versões.

Não sei como funciona o mecanismo tecnológico que identifica a quantidade de leitura dos textos desta revista digital. Sei que sei que é infalível. Isso é ótimo, porque dá uma boa ideia sobre determinados assuntos. Uma das três matérias mais lidas, conforme consta da página principal deste CapitalSocial, é a morte do legista Carlos Delmonte. Já as supostas mortes misteriosas de testemunhas do caso Celso Daniel não registram igual número de interessados. Vou disponibilizar os dois textos no link logo abaixo, entre outros que vão auxiliar os leitores a entenderem o assunto. Dessa forma, poupo a todos de descerem a detalhes para contrapor informações substanciosas às incursões de Jô Soares e de Mara Gabrilli.

Suicídio simplificado
A argumentação de Jô Soares para lançar dúvidas sobre o suicídio do legista é de simplicidade tão aterradora que poderia ser chamada, de fato, de simplória. Jô Soares disse aos telespectadores que, após entrevistar Carlos Delmonte, tempos atrás, ouviu do legista, nos bastidores, dois dias antes de ser encontrado morto, que ele pretendia tirar férias, porque estaria cansado dos desdobramentos do caso. Jô sugeriu que quem pretende descansar não cometeria suicídio.

Ouvisse especialistas, Jô Soares saberia que o padrão de comportamento de um potencial suicida não é algo tão simétrico e calculado como a velocidade de um campeão de Fórmula-1 a cada curva no meio do caminho. A lógica de um suicida em potencial é tão indestrutível quanto o favoritismo de uma equipe, qualquer que seja, numa disputa de mata-mata.

Já escrevi nesta revista digital sobre a entrevista de Carlos Delmonte a Jô Soares. Um dos delegados federais que trabalhou no caso Celso Daniel foi ouvido por mim e não poupou críticas ao legista por um conjunto de informações consideradas falsas e descabidas. Esse texto também está no link abaixo.

Considerando-se a complexidade da morte de Celso Daniel, espertamente associada pela força-tarefa do Ministério Público Estadual aos crimes agora ajuizados de gestão pública do PT em Santo André, tanto Jô Soares quanto Mara Gabrilli parecem mais vítimas de deformações que se consolidaram como senso comum do que deliberadamente doutrinários da disseminação de duas farsas, entre tantas.

Caso complicadíssimo
Conhecer o caso Celso Daniel não é tarefa para qualquer um da mídia. Não houvesse pegado o touro a unha desde o princípio, mergulhando de cabeça nas investigações, jamais teria me metido a enfrentamentos indigestos. Sei muito bem quanto me custou e ainda me custa como profissional de comunicação ter me oposto à tese do Ministério Público Estadual, destruída por três investigações da Polícia Civil de São Paulo e por uma ação da Polícia Federal. Seria mais cômodo, fosse omisso e covarde, esquecer os desdobramentos do assassinato e deixado que águas impuras corressem correnteza abaixo. Como fez a quase totalidade da mídia nacional, entregue docilmente à versão unilateral dos promotores criminais.

A ideologização e o partidarismo tomaram conta do assassinato de Celso Daniel desde os primeiros dias e contribuíram para confundir as bolas. É difícil suportar a ideia de que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Assalto aos cofres públicos é uma coisa, assassinato numa metrópole então entregue a sequestradores é outra. 


Leiam para entender:


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domingo, 29 de maio de 2016

O Brasil monstruoso revelado pela leitura dos comentaristas de sites



Os sites que permitem comentários se tornam a cada minuto lugares impróprios para quem deseja manter sua sanidade e alguma esperança na Humanidade ou em si mesmo.

Vamos considerar, apenas por um momento, que o estupro da adolescente por 30 ou 33 criminosos seja uma farsa. Eu li algo assim, acreditem. Não levo essa possibilidade a sério de forma alguma.

Parece óbvio que quem propõe essa monstruosidade não o faz pensando em nos alertar, mas sim, de colar na vítima adolescente a pecha de mentirosa. Além de "nóia" e "vagabunda", ela também seria "mentirosa", capaz de inventar ter sofrido um estupro coletivo.

Mas vamos admitir, por alguns minutos, que eu e outros milhões de pessoas estejamos sendo feitos de trouxas. Que, na verdade, o que existiu foi um gang-bang consentido, do qual a adolescente, por alguma razão, tenha se arrependido depois de ter participado.

A notícia boa, se é que podemos dizer assim, é que seria uma vítima de estupro a menos no Brasil. Uma gota d'água no oceano (*).

De resto, o que emerge daí, não é nada animador. Pelo contrário. É desesperador.

Li uma entrevista com um músico, décadas atrás. Não lembro em detalhes mas, na época, não sei se por iniciativa da Prefeitura paulistana ou se da Câmara de Vereadores, a suástica nazista foi banida, sendo proibido o uso, o comércio, etc. Perguntado sobre o que achava daquilo, para minha surpresa, o músico gringo ( um punk anti-nazismo, anti-corporações, anti-Reagan ) disse ser contra, com a justificativa de que sem o ornamento ficaria difícil identificar quem são. Uma opinião controversa, mas tem seu mérito.

Assim, nessa linha de raciocinio, por mais que a imensa maioria dos comentários sobre esse estupro ( mesmo que ele não tivesse acontecido ), em qualquer site, blog ou portal de notícias seja horrível, nojenta, asquerosa, brutal, monstruosa e revoltante, pode-se ao menos avaliar com alguma precisão o tamanho do buraco em que estamos (**). Se não se expusessem, em toda sua abjeção doentia, acharíamos que cada um deles é um sujeito ou mulher bacana, pacatos "cidadãos de bem". O espaço dedicado a comentários é a corda em que se enforcam. Muitos deles ali dão ampla razão a quem alega que todo homem é um estuprador em potencial. Se todos os homens somos mesmo [ estupradores em potencial ] eu não sei, mas muitos daqueles comentaristas deveriam ser monitorados pela polícia, como forma de prevenir uma tragédia.

Vamos, pela última vez nesse exercício hipotético, considerar que este estupro é uma farsa. O pensamento mais razoável a respeito disso talvez seria "Olha gente, esse caso não aconteceu, vocês foram enganados. Porém isso não muda nada a realidade das mulheres e dos milhares de estupros que ocorrem no Brasil, notificados ou não."

Mas o pensamento corrente, exposto pelos comentaristas de portais é: "Essa história tá mal contada. Esse estupro é caô, a mina é nóia vagabunda e provocou isso aí e agora quer dar uma de santa, de vitima. Essas mina são assim."

Não poucos deles ainda desdenham e fazem pouco caso dos outros milhares de estupros e das milhares de mulheres vitimas da violência. Ao tentarem negar, minimizar e desmentir esse caso específico da adolescente carioca, parecem desejar fazer o mesmo com todos os outros.

Como diz o ditado, o reconhecimento da doença é o princípio da cura. A doença já se conhece, não é de hoje. Talvez não soubessemos ainda o grau de severidade que acomete o enfermo. Só temos que ter cuidado de proteger o fígado e taparmos o nariz quando fizermos uma incursão por esse mundo sinistro dos comentários de portais.

(*) Desconheço o que diz a lei a respeito da participação de adolescentes de 16 anos em um hipotético gang-bang "consentido", envolvendo dezenas de adultos

(**) Justiça seja feita, isso tem valido para praticamente todo tipo de assunto discutido e comentado.


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sábado, 28 de maio de 2016

Requião prevê que Senado vai barrar o impeachment de Dilma



O senador Roberto Requião (PMDB-PR) disse neste sábado (28) que o Senado irá barrar o afastamento definitivo da presidente eleita Dilma Rousseff.

“Acredito que senado já percebeu que o impeachment é asneira. Precisamos encontrar caminho nacionalista para nosso Brasil. Sem Meirelladas!”, tuitou o parlamentar.

Requião jantou na última terça (24) com Dilma, quando ele pediu mudança na economia. “O fato é que Michel Temer terceirizou a condução da economia para banqueiros e rentistas”, criticou.

Parece que a presidente eleita está seguindo o conselho de Requião que sugeriu que ela, para voltar ao cargo, fizesse autocrítica e assumisse compromissos nacionalistas.

Citando o sociólogo Emir Sader, o senador anotou que a política do ministro interino da Fazenda, Henrique Meirelles, “não é produzir mais chapéus, mas cortar cabeças” e que “o golpe é o veículo, não o fim”.

Para Requião, “a corrupção é verdadeira, mas impeachment é caminho para fim de projeto nacional”.

O Senado aprovou a admissibilidade do impeachment de Dilma no último dia 12 de abril pelo placar de 55 votos favoráveis e 22 contrários. Três senadores se ausentaram e 1 não votou.

Na votação no mérito, provavelmente em agosto, os golpistas necessitarão de dois terços dos votos no Senado, ou seja, 54 votos dos 81 possíveis.

Dilma precisará de reverter apenas três votos num universo, segundo os legalistas, de 13 senadores que votaram pela admissibilidade “não pelo impeachment”.


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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Vitimas


Sabe quando a gente toma todas as precauções possíveis, mas não adianta nada, e acabamos sendo assaltados na saída do banco, temos nossa casa invadida e saqueada ( "Levaram a TV de plasma novinha!" ) ou temos nosso carro ou moto roubados? 

Quem a gente culpa? Quem o Datena e o Rezende culpam? 

Os tais bandidos, certo? Nós somos as vítimas. Certo? Não interessa se nossa casa é linda, nosso carro é o mais caro, moderno e vistoso da categoria, ou nosso salário é alto e chama a atenção dos amigos do alheio. 

Acho que você deve concordar comigo, mas vou repetir, embora estejamos de acordo: NÓS somos as vítimas e eles são os bandidos. Nós não provocamos nosso próprio assalto, não acha? Ninguém assalta o outro por ter sido provocado a fazê-lo. Seria um absurdo, correto? 

Imagina o cara diante do juiz, se defendendo: "Ele passou com aquela pacoteira de grana escondida mas que dava pra ver, e isso atiçou meus instintos, e eu achei que fui provocado. Se alguém tem que ir preso, esse alguém é ele, por ficar provocando a nós, pobres ladrões, e nos levando a cometer esses ilícitos!"

Agora finalmente você consegue entender quem é a vítima nos casos de estupro? Eu falei em grana, carro, TV de plasma, moto, porque sei que são as coisas com que você mais se importa realmente nessa vida. 

Se não consegue entender, faça um favor à Humanidade: se mata.

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"Apartidário", MBL recebia favores de PMDB, PSDB, DEM, Paulinho da Força para derrubar Dilma



Então rolava uma “mortadela” do PMDB, do DEM e do PSDB para o MBL, “seu” Kim?

Reportagem de Pedro Lopes e Vinícius Segall, no UOL, Áudios mostram que partidos financiaram MBL em atos pró-impeachment:

O MBL (Movimento Brasil Livre), entidade civil criada em 2014 para combater a corrupção e lutar pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), recebeu apoio financeiro, como impressão de panfletos e uso de carros de som, de partidos políticos como o PMDB e o Solidariedade.

O movimento negociou também com a Juventude do PSDB ajuda financeira a suas caravanas, como pagamento de lanches e aluguel de ônibus, e teria tido apoio da “máquina partidária” do DEM.


Quando fundado, o movimento se definia como apartidário e sem ligações financeiras com siglas políticas. Em suas páginas em redes sociais, fazia campanhas permanentes para receber ajuda financeira das pessoas, sem ligação com partidos.


Os coordenadores do movimento, porém, negociaram e pediram ajuda a partidos pelo menos a partir deste ano. Atualmente, o MBL continua com as campanhas de arrecadação nos seus canais de comunicação, mas se define como “suprapartidário”. Aliás, a contribuição financeira concedida é vinculada ao grau de participação do doador com o movimento. A partir de R$ 30, o novo integrante pode ter direito a votos.

Tem desculpas pra lá e pra cá, foi material, foi lanche, foi passagem, foi isso, foi aquilo.

O fato, porém, é que eles eram os primeiros a proclamar sua total independência dos partidos e a acusar os defensores da legalidade a serem movidos a “mortadela”.

Os comentários estão “bombando no site do UOL. E a defesa, claro, é a de dizer que os jornalistas são petistas ou “petralhas”.

E olha que só apareceu a pontinha do rabo desta gente.

Vai precisar de muita “coluna” de Kim Kataguiri na Folha para explicar.



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Trecho extraido de "Máscaras golpistas caindo; coxinhas são recheados de mortadela", publicado no Blog da Cidadania:


"( ... ) Agora, surge uma bomba que deve se espalhar como fogo pelo mundo. Simplesmente confirmou-se o que todos sabiam, que esses vagabundos de ultradireita que passam o dia na internet insuflando ódio político para inflar manifestações de rua são pagos pelo PSDB, pelo PMDB, pelo DEM e congêneres.


O que é mais divertido nessa história é que os fascistas desse grupo de trolls profissionais que foi flagrado em gravações confessando que é pago por partidos de direita, o tal “MBL”, vive afirmando que os manifestantes pró Dilma são pagos com “sanduíches de mortadela”.


A matéria publicada no UOL mostra que quem é pago para se manifestar e deve estar comendo muita mortadela é a direita antipetista. Quem entregou o jogo foi o “secretário de juventude” do PSDB-RJ, Ygor Oliveira, flagrado confessando que partidos pagam lanche, transporte e um troquinho aos grupos que o MBL leva para manifestações.

Diz o tucano-mirim Ygor Oliveira:

“(…) Aqui no RJ, foi feita uma parceria entre o MBL, na pessoa do Bernardo Sampaio [coordenador do MBL], e na minha pessoa, Ygor Oliveira, pela juventude do PSDB. Fizemos uma… um projeto de a JPSDB captar com amigos, colaboradores, o valor referente a hospedagem, alimentação, translado, entre outras despesas(…)”

Está provado, também, que esse bando de comentaristas de direita composto exclusivamente por anônimos e que passa os dias postando agressões na internet é movido por “idealismo” remunerado. Por isso que todos os militantes de direita que comentam matérias políticas em sites da internet são anônimos. Está explicado."

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O "livre de PT" justificava absolutamente tudo. Nunca foi "contra a corrupção".



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quarta-feira, 25 de maio de 2016

"Aécio está com medo", diz Renan sobre delação de Delcídio



Em áudio vazado, presidente do Senado diz que senador tucano pediu ajuda para saber detalhes do acordo feito por Delcídio do Amaral com a Justiça

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), citado por cinco delatores diferentes da Operação Lava Jato, é mencionado em um novo áudio vazado que tem como personagens o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro, subsidiária da Petrobras.

Divulgados pelo jornal Folha de S.Paulo, os áudios mostram Renan e Machado conversando sobre a crise política e possíveis saídas para ela. Em determinado ponto da análise, Machado afirma que toda a classe política está com um "aperto nos ombros" e Renan responde dizendo estarem todos com medo.

O senador emenda citando Aécio, presidente do PSDB e candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2014, que estaria "com medo" da delação do senador cassado Delcídio do Amaral, ex-líder do governo Dilma Rousseff, e teria pedido a ele para buscar mais informações sobre o acordo.

MACHADO - E tá todo mundo sentindo um aperto nos ombros. Está todo mundo sentindo um aperto nos ombros.

RENAN - E tudo com medo.

MACHADO - Renan, não sobra ninguém, Renan!

RENAN - Aécio está com medo. [me procurou] 'Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa.'

MACHADO - Renan, eu fui do PSDB dez anos, Renan. Não sobra ninguém, Renan.

Em sua delação, Delcídio cita dois casos envolvendo Aécio Neves. No primeiro, ele afirma que o tucano recebeu propina em um esquema de corrupção em Furnas, subsidiária da Eletrobras.

No segundo, Delcídio afirma que, na época em que presidiu a CPMI dos Correios, que investigou o "mensalão", um emissário do tucano lhe pediu que o prazo de entrega da quebra dos sigilos do Banco Rural fosse ampliado, a fim de “maquiar os dados”.

“A maquiagem consistiria em apagar dados bancários comprometedores que envolviam Aécio Neves, Clésio Andrade, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Marcos Valério ‘e companhia’”, diz a delação. Delcídio afirma, ainda, que a estratégia se devia ao fato de que “a gênese do mensalão teria ocorrido em Minas”.

Na segunda-feira 23, a mesma Folha de S.Paulo revelou gravações entre Sergio Machado e Romero Jucá (PMDB-RR) que acabaram derrubando o ministro do Planejamento de Michel Temer. Nos áudios, Machado, que foi líder do PSDB no Senado antes de deixar a política, afirma que "Aécio não tem condição" de ganhar uma eleição e pergunta: "Quem não conhece o esquema do Aécio?".

Sergio Machado, um dos primeiros alvos da Lava Jato, fez um acordo de delação premiada com a força-tarefa da Lava Jato e os termos, segundo reportagem do jornal Valor Econômico, foram homologados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki, relator da Lava Jato na corte.

Renan pede desculpas a Aécio

De acordo a Folha, em resposta ao jornal, Renan Calheiros enviou uma nota afirmando que todas as opiniões manifestadas na conversa com Sergio Machado já eram públicas. Em relação a Aécio, no entanto, Renan "se desculpa porque se expressou inadequadamente". O presidente do Senado, diz a nota, "se referia a um contato do senador mineiro que expressava indignação – e não medo – com a citação do ex-senador Delcídio do Amaral."

A Executiva Nacional do PSDB disse ao jornal que vai "acionar na Justiça" o ex-presidente da Transpetro. Para o PSDB, é "inaceitável essa reiterada tentativa de acusar sem provas em busca de conseguir benefícios de uma delação premiada".

"Fica cada vez mais clara a tentativa deliberada e criminosa do senhor Sérgio Machado de envolver em suspeições o PSDB e o nome do senador Aécio Neves, em especial, sem apontar um único fato que as justifique. As gravações se limitam a reproduzir comentários feitos pelo próprio autor, com o objetivo específico de serem gravados e divulgados", diz o partido.


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STF de merda detestava Dilma por causa de dinheiro, revelam conversas de Renan




O grande mérito da publicação das conversas gravadas é tornar brutalmente claro aquilo que as pessoas mais informadas já sabiam e que era negado pela mídia liderada pela Globo.

Foi golpe. E foi um golpe imundo, em que homens e instituições moralmente putrefatos se uniram para derrubar uma mulher honesta que levou a investigação da corrupção a patamares jamais vistos.

A gravação de Renan, publicada hoje pela Folha, ajuda a compreender ainda melhor o que ocorreu.

Mais uma vez, o STF aparece com destaque na trama golpista. E isto é desesperador: você pode cassar políticos. Mas como lidar com um poder que julga a si mesmo?

Num mundo menos imperfeito, o STF seria imediatamente dissolvido, tais as acusações e as suspeitas que recaem sobre seus integrantes.

Mas como fazer isso?

Escrevi ontem e repito agora: o STF era o grande argumento pelo qual a Globo, em nome da plutocracia, atacava como “alucinação” e “conto da carochinha” a tese do golpe.

Na conversa agora divulgada, Renan diz que todos os eminentes juízes do Supremo estavam “putos” com Dilma. [ grifos deste blog ]

O motivo não poderia ser mais canalha: dinheiro.

Renan relata uma visita que fez a Dilma. Ela conta que recebeu Lewandowski para o que imaginou que fosse ser um encontro de alto nível sobre a dramática situação política do país.

Mas.

Mas Lewandowski “só veio falar em dinheiro”, disse Dilma. “Isso é uma coisa inacreditável.”

Há muitas coisas inacreditáveis em relação ao STF, a rigor. A demora de quatro meses de Teori para acolher o pedido de afastamento de Eduardo Cunha é uma delas. As atitudes sistematicamente indecentes e partidárias de Gilmar Mendes e seu mascote Toffoli são outra delas.

O interlocutor de Renan na conversa, o mesmo Sérgio Machado de Jucá, produziu a melhor definição do STF destes tempos. “Nunca vi um Supremo tão merda.”

Outros personagens destacados do golpe aparecem neste diálogo vazado. A Folha, por exemplo, se bateu intensamente pela queda de Dilma. Mais especificamente, seu dono e editor, Otávio Frias Filho.

Ele é citado por Renan como tendo reconhecido exageros na cobertura da Lava Jato.

Ora, ora, ora.

Se reconheceu o caráter maligno do circo da Lava Jato, por que ele não fez nada? Ele era apenas o ombudsman do jornal, ou o porteiro do prédio?

Bastaria uma palavra sua para retirar o exagero da cobertura. Se não a pronunciou, é porque era conivente ou inepto como diretor.

Faça sua escolha.

Aécio surge acoelhado. Tinha medo da Lava Jato, diz Renan. Sabemos agora que Aécio não é apenas demagogo, hipócrita e corrupto.

É também covarde.

E é neste campo que, sem saber que era gravado, Renan presta um extraordinário tributo a Dilma. “Ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável.”

Os colunistas da imprensa, nestes dias, diziam freneticamente que Dilma estava abatida. Era gripe, informa Renan. “Ela está gripada, muito gripada.”

Se existe algum tipo de decência no Brasil – de justiça não dá para falar, dado o STF – Dilma tem que receber um formidável pedido de desculpas dos brasileiros e ser reconduzida ao posto do qual canalhas golpistas a retiraram.

DCM

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Escândalo: Jucá tenta deter a Lava Jato, por Jasson de Oliveira Andrade



O diálogo entre o então ministro do Planejamento do presidente interino Temer, Romero Jucá, com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, publicado pela Folha (23/5), caiu como uma bomba nos meios políticos. Segundo o autor da reportagem, jornalista Rubens Valente, “em conversas ocorridas em março passado, o ministro do Planejamento, senador licenciado Romero Jucá (PMDB-RR), sugeriu ao ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado que uma “mudança” no governo federal [Dilma por Temer] resultaria em um pacto para “estancar a sangria” representada pela Operação Lava Jato, que investiga ambos (sic).” Ainda segundo o diálogo, Machado pediu a interferência de Jucá para que impedisse que o juiz Moro os julgasse. Jucá concordou que o caso de Machado “não pode ficar na mão desse [Moro]”. Valente revela: “Jucá acrescentou que um eventual governo Michel Temer [com o impeachment da presidenta Dilma] deveria construir um pacto nacional “com o Supremo, com tudo”. Machado disse: “aí para tudo” (sic). “É. Delimitava onde está, pronto”, respondeu Jucá, a respeito das investigações”. Trocando em miúdo: deter a Lava Jato. Em vista dessas e outras declarações, com péssima repercussão, Jucá pediu o afastamento do Ministério!

Jucá, em declaração à imprensa, disse que a sua fala foi mal interpretada. Quando afirmou “estancar a sangria” se referia à economia e não a Lava Jato. Nem mesmo o jornal O Globo, insuspeito porque foi favorável ao impeachment e apóia o governo Temer, acreditou nessa versão dele. Em Editorial, publicado em 23/5, o referido jornal constatou: “O Ministro dá explicações clássicas, reclamando de que frases estão fora de contexto e assim por diante. Mas fica translúcido que Jucá e Machado, dois apanhados nas malhas da Lava Jato – o ministro ainda sendo investigado --, tramavam barrar a Operação num eventual governo Temer. O contrário do que o próprio presidente se comprometeu a fazer ao assumir. Os diálogos, portanto, também atingem Temer”. Mário Magalhães, em texto publicado na Folha, comenta: “O que parecia óbvio para muita gente agora ganha confirmação de viva voz: o impeachment da presidente constitucional Dilma Rousseff foi articulado por próceres do PMDB para assegurar a impunidade de investigados e suspeitos na Operação Lava Jato”, concluindo: “Não é só Romero Jucá quem tem de ser demitido. Michel Temer deveria ser o primeiro”. O Painel da Folha (24/5) noticiou: “É o 13. Depois das queda de Jucá e Eduardo Cunha, os políticos falam em “MALDIÇÃO DO IMPEACHMENT” (destaque meu). Eles derrubaram Dilma e estão caindo um a um”, brinca um cacique, que completa: “Quem será o próximo?”.

Uma parte do diálogo deixa o Aécio mal: “Machado – O Aécio, rapaz... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem não sabe? Quem não conhece o esquema (sic) do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB... Jucá – É, a gente viveu tudo”. 

Josias de Souza, em artigo na Folha (24/5), analisa esse diálogo de Jucá com Machado: “Em apenas 12 dias, a gestão de Michel Temer virou um futuro obsoleto. Logo, logo o lema positivista que o marqueteiro do PMDB retirou da bandeira para servir de slogan para o novo governo será substituído. Em vez de “Ordem e Progresso”, o mais adequado seja “Negócio e Negócio”. Já o Estadão (24/5), na reportagem “Lava Jato na Esplanada”, noticia: “Governo teme novas revelações de Sérgio Machado – A preocupação é de que outros integrantes da cúpula do PMDB sejam envolvidos; Temer tem cinco ministros alvo de inquéritos no Supremo”. Será? Como sempre digo: A CONFERIR!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

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terça-feira, 24 de maio de 2016

Moradia, a primeira vítima de Temer



Começou a temporada de caça aos programas sociais. Alçado ao Palácio do Planalto sem ter recebido sequer um voto, Michel Temer busca implementar um programa que tampouco foi legitimado pelas urnas. A primeira vítima, junto com a cultura, foi o direito à moradia. 

O Ministro das Cidades, Bruno Araújo (PSDB), estreou no cargo cancelando a contratação de 11.250 casas que já estavam aprovadas. Com uma canetada irresponsável, atacou o sonho e a luta de milhares de famílias por morar dignamente. 

O argumento utilizado foi "estudar os documentos para saber se está tudo certo". Ora, ora, alguém precisa avisar a Araújo que dois dos últimos ministros das Cidades -e responsáveis pelos contratos do programa- são seus colegas na Esplanada, um agora como Ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (Gilberto Kassab) e o outro como presidente da Caixa Econômica Federal (Gilberto Occhi). A auditoria é neste caso um pretexto mal disfarçado para atacar conquistas sociais. 

É sintomático que o cancelamento dos contratos tenha se voltado principalmente contra a modalidade Entidades do programa, na qual os futuros moradores gerenciam o projeto e a obra. 

Impressiona a ignorância contida nos ataques ao Minha Casa, Minha Vida, na tentativa de justificar os cortes. Primeiro, o argumento orçamentário. A modalidade "Entidades" responde por menos de 2% de todo o recurso do programa, motivo aliás de enfrentamento constante dos movimentos com a presidente Dilma Rousseff. Não há qualquer impacto relevante nas contas públicas, o que deixa claro que a decisão de cancelar os contratos é muito mais política do que econômica. 

Segundo, a acusação de que o "Entidades" representaria uma forma de financiamento dos movimentos sociais. Alguém que conheça as regras do programa não poderia dizer isso de boa-fé. Os repasses são vinculados aos custos com terreno e obra. 

O pagamento do terreno é feito pela Caixa diretamente aos proprietários. E o da obra só é liberado após medições técnicas mensais que confirmem a execução do serviço. Se querem buscar irregularidades, deveriam procurar em obras gerenciadas pelas empreiteiras, com 98% dos recursos e qualidade inferior. 

Aí está o terceiro e mais importante ponto, o da "eficiência e qualidade". Pois bem, as moradias realizadas por gestão direta dos beneficiários, organizados em movimentos sociais, estão simplesmente entre as melhores e maiores do programa. São dados. Esperamos que o ministro os localize em sua "auditoria". 

Tomemos o condomínio João Cândido, na região metropolitana de São Paulo, realizado pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). É a maior unidade habitacional da faixa 1 do programa no país. 

Os apartamentos têm 63 m², varanda e três dormitórios, construídos com o mesmo valor com que as empreiteiras fazem "caixinhas" de 39 m². Os prédios têm elevador, salão de festas e playground. 

É com isso que querem acabar. Exatamente pelo que simboliza: a potência da organização popular. O ranço autoritário não admite o papel dos movimentos sociais, sua autonomia e realizações. Gostariam que não existíssemos e por isso tentam nos atacar e desmoralizar. 

A narrativa de Temer sobre a "pacificação do país" e a manutenção dos programas sociais não durou nem uma semana. Seu governo já enfrentaria de todo modo resistência nas ruas, por ser fruto de um golpe parlamentar. 

A moradia foi o primeiro alvo. Os sem-teto saberão responder à altura, com mobilizações intensas em todo o país. Não se brinca com o sonho do povo.

NATALIA SZERMETA, 28, membro da coordenação do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) em São Paulo 
SÉRGIO FARIAS, 44, membro da coordenação do MTST no Ceará 
VITOR GUIMARÃES, 25, membro da coordenação do MTST no Rio de Janeiro


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Jornalista gringo acha que escândalo Jucá finalmente levará imprensa brasileira a falar que "impeachment" é mesmo golpe. O cara deve acreditar em unicórnios.


Glenn Greenwald: Mídia terá que começar a dizer que é um golpe

Primeira repercussão internacional sobre a gravação de Jucá; Greenwald comenta gravações

Glenn Greenwald
Intercept, 24 de Maio de 2016

O país acordou hoje com a notícia das secretas e chocantes conversas envolvendo um importante ministro do recém-instalado governo brasileiro, que acendem uma luz a respeito dos reais motivos e agentes do impeachment da presidente democraticamente eleita, Dilma Rousseff. As transcrições foram publicadas pelo maior jornal do país, a Folha de São Paulo, e revelam conversas privadas que aconteceram em março, apenas semanas antes da votação do impeachment na Câmara. Elas mostram explícita conspiração entre o novo Ministro do Planejamento, Romero Jucá, e o antigo executivo de petróleo Sergio Machado – ambos investigados pela Lava Jato – a medida em que concordam que remover Dilma é o único meio para acabar com a investigação sobre a corrupção. As conversas também tratam do importante papel desempenhado pelas mais poderosas instituições nacionais no impeachment de Dilma, incluindo líderes militares do país.

As transcrições estão cheias de declarações fortemente incriminadoras sobre os reais objetivos do impeachment e quem está por trás dele. O ponto chave da conspiração é o que Jucá chama de "um pacto nacional" – envolvendo as instituições mais poderosas do Brasil – para empossar Michel Temer como presidente (apesar de seus múltiplos escândalos de corrupção) e terminar com as investigações uma vez que Dilma fosse removida. Segundo a Folha, Jucá diz que o Impeachment levaria ao "fim da pressão da imprensa e de outros setores pela continuidade das investigações da Lava Jato."

Não está claro quem é o responsável pela gravação e pelo vazamento da conversa de 75 minutos, mas a Folha reportou que elas estão atualmente nas mãos do Procurador Geral da República. Jucá é líder do PMDB, partido do presidente interino Michel Temer, e um de seus três homens de confiança. Novas revelações serão provavelmente divulgadas nos próximos dias, tornando mais claras as implicações e significados destas transcrições.

As transcrições contêm duas revelações extraordinárias que podem levar toda a imprensa a considerar seriamente chamar o que aconteceu no pais de "golpe": um termo que Dilma e seus apoiadores vem usando por meses. Quando discutia a conspiração para remover Dilma como um meio de finalizar a Lava Jato, Jucá disse que as forças armadas do Brasil apoiam a conspiração: "Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir." Ele disse ainda que os militares "estão monitorando o MST," o movimento rural de trabalhadores que apoia os esforços do PT pela reforma agrária e redução da desigualdade, e que liderou protestos contra o impeachment.

A segunda revelação – e talvez mais significante – é a declaração de Jucá de que assegurou o envolvimento de juízes na Suprema Corte do Brasil, a instituição apontada pelos defensores do impeachment como salvaguarda da credibilidade do processo e utilizada para negar a teoria do golpe. Jucá afirmou que "tem poucos caras [no STF]" a quem ele não tem acesso. O único ministro da Suprema Corte que ele alega não ter contato é Teori Zavascki, que foi apontado por Dilma e de quem – notavelmente – seria impossível obter apoio para barrar a investigação (a ironia do impeachment é que Dilma protegeu a investigação da Lava Jato da interferência daqueles que querem impedi-la). As transcrições também mostram ele dizendo que "a imprensa quer tirar ela," e que "essa porra não vai parar nunca" – falando sobre as investigações – até que ela saia.

As transcrições fornecem provas para quase todas as suspeitas e acusações expressas há tempos pelos oponentes do impeachment a respeito daqueles que conspiram para remover Dilma do poder. Durante meses, os apoiadores da democracia brasileira defenderam dois argumentos sobre a tentativa de remoção da presidente democraticamente eleita: (1) o propósito principal do impeachment de Dilma não era acabar com a corrupção ou punir os corruptos, mas justamente o oposto: proteger os verdadeiros corruptos dando-lhes poder com a saída de Dilma e, logo, permitindo que terminassem com as investigações da Lava Jato;(2) os defensores do impeachment (liderados pela oligarquia midiática nacional) não têm qualquer interesse em limpar o governo, mas tomar o poder que jamais conquistariam democraticamente, para então impor uma agenda de direita e a serviço das oligarquias, que a população brasileira não aceitaria.

As duas primeiras semanas do recém-instalado governo de Temer mostram grandes evidências para ambos os argumentos. Ele nomeou vários ministros diretamente envolvidos em escândalos de corrupção. Um importante aliado que vai liderar a coalização de seu governo na Câmara dos Deputados – André Moura – é um dos políticos mais corruptos do país, alvo de múltiplas investigações criminais, não só por corrupção mas também por tentativa de homicídio. O próprio Temer está profundamente implicado em casos de corrupção (ele enfrenta a possibilidade de se tornar inelegível pelos próximos oitos anos), e está correndo para implementar uma série de mudanças de direita e orientadas para as oligarquias do país, que o Brasil jamais permitiria democraticamente, inclusive medidas, como detalhado peloGuardian, para "suavizar a definição de escravidão, reverter a demarcação de terras indígenas, cortar programas de construção de casas populares e vender ativos estatais em aeroportos, serviços públicos e os correios".

Mas, ao contrário dos acontecimentos das últimas semanas, essas transcrições não são meras evidências. Elas são provas: provas de que as principais forças por trás da remoção da Presidente entenderam que removê-la era o único meio de se salvarem e de evitarem que sejam responsabilizados por sua própria corrupção; provas de que os militares brasileiros, as principais organizações de mídia, e sua Suprema Corte foram conspiradores ativos na remoção da presidente democraticamente eleita; provas de que os agentes do impeachment viam a presença de Dilma em Brasília como garantia de que as investigações da Lava Jato continuariam; provas de que nada daquilo tinha a ver com a preservação da democracia brasileira, mas com sua destruição.

Por sua parte, Jucá admite que essas transcrições são autênticas mas insiste que foi tudo um mal-entendido e que seus comentários foram retirados do contexto, chamando isso "also banal." "Aquela conversa não é um pacto sobre a Lava Jato. É um pacto sobre a economia […] É um pacto para se tirar o Brasil da crise," disse ele em uma entrevista, nesta manhã, ao blogger de política do UOL Fernando Rodrigues. A explicação não é minimamente razoável à luz do que ele disse na gravação, bem como da explícita natureza conspirativa da conversa, na qual Jucá insiste numa série de encontros particulares, em detrimento de encontros em grupo, para evitar suspeitas. Líderes políticos já estão pedindo seu afastamento do governo.

Desde a instalação de Temer como presidente, o Brasil tem visto intensos e crescentes protestos contra ele. A mídia brasileira – que vem tentando desesperadamente glorifica-lo – tem evitado a publicação de pesquisas por algumas semanas, mas os últimos dados mostrar que Temer tem apenas 2% de apoio e que 60% da população querem seu impeachment. A única pesquisarecentemente publicada mostrou que 66% dos brasileiros acreditam que os legisladores votaram pelo impeachment em benefício próprio – uma crença reforçada pelas transcrições – enquanto apenas 23% acreditam que foi em prol do país. Ontem, em São Paulo, a polícia colocou barricadas na rua onde fica a residência de Temer por conta de milhares de manifestantes que se dirigiam ao local; a polícia usou mangueiras e gás lacrimogêneo para dispersar os protestos. O anúncio do fechamento do Ministério da Cultura levou artistas e simpatizantes a ocupar secretarias de cultura em todo o país em protesto, o que forçou Temer a reverter a decisão.

Até agora, o The Intercept, como a maioria da mídia internacional, se absteve de usar a palavra "golpe" apesar de ter sido (como muitas outros meios de comunicação) profundamente crítico da remoção antidemocrática de Dilma. Estas transcrições compelem a um reexame desta decisão editorial, particularmente se não surgem evidências para pôr em questão a razoabilidade do significado das declarações de Jucá ou seu nível de conhecimento. Um golpe parece, soa e cheia exatamente como esta recém revelada conspiração: assegurando a cooperação dos militares e das instituições mais poderosas para remover uma presidente democraticamente eleita por motivos egoístas, corruptos e ilegais, para então impor uma agenda a serviço das oligarquias e rejeitada pela população.

Se o impeachment de Dilma conitnua inevitável, como muitos acreditam, essas transcrições tornarão muito difícil a permanência de Temer. Pesquisas recentes mostrar que 62% dos brasileirosquerem novas eleições para eleger seu presidente. Esta opção – a opção democrática – é a solução mais temida pelas elites do Brasil, porque elas estão apavoradas (com bons motivos) com a possibilidade de que Lula ou outro candidato que as desagrade (Marina Silva) possam ganhar. Mas essa é a questão: se, de fato, é a democracia que está sendo combatida e aniquilada no Brasil, é hora de começar a usar a linguagem apropriada para descrever isso. Estas transcrições tornam cada vez mais difícil para as organizações de mídia evitarem fazê-lo.



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quinta-feira, 19 de maio de 2016

De "coxinha" a "trouxinha"

De toda essa destruição que se aproxima, permanecerá, sem dúvida, para a posteridade, o epíteto "coxinha".

"Coxinha" qualifica o sujeito triplamente: fascista, violento e ignorante.

Ao contrário da "mortadela", coisa que a pessoa recebe, "coxinha" é algo que se é.

Inocente útil seria a definição análoga. Desde que a ênfase recaia sobre o adjetivo útil. Massa de manobra + "coxinha" = massa de "coxinha".

( Inocentes? Não, isso nunca.)

Não é por acaso que a nação "coxa" está em polvorosa no pós-Golpe. Sua ignorância, seu fascismo e sua violência ficaram expostos a partir da chegada do Comitê de Saque à Esplanada dos Ministérios. Comentam como loucos em qualquer reportagem crítica ao Governo. Rebatem qualquer acusação. Planejam boicotes, gravam vídeos, preenchem petições. Tuítam como se não houvesse amanhã.

Pior! Precisam provar que não está havendo a mutação: que, de coxinhas, não estão todos passando à nova forma de "trouxinhas".

Update de "coxinha" = "trouxinha".

Daqui a décadas serão lembrados. E, graças à internet, teremos toneladas de fotos, vídeos, prints de comentários, tuítes, listas de assinaturas em petições.

O Buzzfeed do futuro vai mostrar as 18 coisas que só quem foi "coxinha" entende. Os jovens do futuro farão festas à fantasia com o tema "carna-coxinha". As TVs do futuro terão programas "No Tempo dos Coxinhas". Só com sertanejo universitário, heavy metal melódico e rapazes musculosos girando bandeiras do Brasil sobre a cabeça.

Os "coxinhas" vão carregar pro resto da vida essas aspas em torno de si mesmos. Como mullets. Uma variação aguada do otário.

Abre aspas: "Coxinha".

( IRAJÁ MENEZES, no Facebook )

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Toni Cunha e Carniça ( ficção )



Toni Cunha e Carniça (*) se conheciam desde crianças, jogavam bola e bebiam KiSuco juntos.

O Cunha, que, se nunca foi rico, tinha a vida mais confortável entre todos da turminha da rua, e só foi trabalhar quando quis, estudou em escola estadual, quando esta era seletiva. Carniça estudou na escola municipal.

Apesar de todos na rua andarem juntos, havia grupinhos. Quando iam jogar ATARI na casa do William, Carniça não era chamado. Quando tinha campeonato de botão, todos participavam. Todos empinavam pipa na rua, juntos. Quando a onda voltou a ser a bicicleta ( as "ondas" iam e voltavam ) Carniça ficava de fora, já que nunca teve uma. Quando a onda das pipas retornava, Carniça tava lá, junto da turma. No verão, tinha um clubinho com piscina pra onde a molecada ia. Digo, a molecada cujos pais pagavam a mensalidade. Não os pais de Carniça, claro. Os mais remediados da rua às vezes se juntavam na casa de alguém que tinha uma Regan. Carniça gostava de vê-los se refrescando, tanto que passava pra lá e pra cá, na calçada, olhando a festa. Até que desistia e ia para casa.

Cunha se especializara em contar piadinhas. Era o cara que tinha os disquinhos do Ari Toledo. Cunha adquirira gosto especial por contar piada de preto, de bicha e de baiano. Às vezes, nas noites de verão, a molecada ficava na porta de alguém. Cunha contava as piadas. Muitas delas eram repetidas, mas ninguém se importava. Riam a valer, com sinceridade. Carniça também ria. Até os adultos que porventura estivessem por ali paravam para escutar. Muitos deles também riam muito. Ninguém censurava os jovens quando contavam piada de preto e de baiano. Só não podia falar palavrão. Depois, alguém decidia que iam falar de histórias de fantasma, de lobisomem. Carniça contava as histórias que escutava no rádio. Cunha - que, ao contrario de Carniça, ia sempre no cinema - contava histórias como a do carro que criava vida e saia matando as pessoas.

Uma coisa que, desde cedo, Carniça notou: ele e seus irmãos nunca eram chamados para as festinhas na rua. Algo que nunca entendeu, já que todos andavam juntos. Às vezes ficava sabendo que os pais do aniversariante não quiseram. Noutras, era o próprio amiguinho aniversariante quem não chamou.
Mas sabe como são as crianças, esquecem logo. No dia seguinte já estavam brincando todas juntas. Embora os que foram convidados contavam, com riqueza de detalhes, como tinha sido a festinha. Bolo. Brigadeiro. Carne louca e guaraná.

( Em certo momento futuro, ele fará uma espécie de inventário mental involuntário, contabilizando intuitivamente a quantidade de ocasiões em que isso aconteceu, e descobriu que na maioria esmagadora das vezes ele foi deixado de fora. Mas isso ainda não lhe configurava algo significativo. Ao menos não na percepção racional de Carniça. Ele apenas ainda não tinha se dado conta do que aquilo lhe causava, emocionalmente. Também viria o dia em que ele acabaria descobrindo o que a recusa em chamá-lo singnificava PROS OUTROS, ou seja, quais as razões deles para aquilo. Teve ocasiões em que ele e seus irmãos foram os únicos da rua a não serem chamados. Mas, como dito, foi um inventário involuntário. Tanto que isso não o afetou nem mudou nada nele. Só que as informações ficaram guardadas em seu cérebro e fariam parte de seu ser, tanto os eventos em si como o próprio inventário deles. Não havia porque esquecer. E não havia como. ).

Por morar em residência própria - que seria herdada por ele, anos depois - Cunha nunca teve grandes problemas financeiros. Se tivesse que vender picolé ou chocolate na rua era para juntar grana para ir ao cinema ou pra comprar um par de tênis mais caro que aquele marromeno que os pais lhe davam, JAMAIS para ajudar em casa, ao contrário de Carniça e seu irmãos que, se o faziam, era por questão de sobrevivência. Para pagar o aluguel, por exemplo.

Assim, Cunha, desde cedo pôde fazer certas escolhas. Diversas, talvez centenas de escolhas aparentemente simples, prosaicas e supostamete incapazes de decidir fortemente o destino de uma vida. Carniça também teve que fazer certas escolhas, diversas escolhas. No entanto, muitas vezes não havia escolha a ser feita. Era aceitar e pronto. Noutras palavras, o Cunha teve, em várias vezes,, o direito de escolher. Carniça, quase nunca.

Mesmo no rol das obrigações juvenis, Cunha tinha algo a diferencia-lo. Carniça estudou em escola municipal. Cunha, na estadual. Carniça e seus irmãos não cumpriam os requisitos que lhes daria o ingresso nesta. Cunha levava lanche de casa, aprontado com esmero pela mãe. Carniça e seus irmãos comiam a merenda escolar. E repetiam o prato. Cunha era o primeiro a garantir a lista de material escolar novinho e cheiroso. Carniça e seus irmãos várias vezes precisavam ganhar materiais da escola. Uma vez a tia de Carniça levou um monte de materiais que o primo deles não usava mais.

Carniça ainda estava na escola quando arrumou o primeiro emprego de meio-período.

É seu primeiro emprego remunerado, já que ele e seus irmãos ( quem estivesse livre no momento ) às vezes tinham que ajudar o pai nos trabalhos de carpintaria, marcenaria, pedreiro. Quando o pai estava em uma fábrica, não tinha disso. Quando perdia o emprego e fazia coisas em casa, ora precisava de ajuda nas tarefas, ora nas entregas, que eram feitas a pé. O pai de Carniça não tinha carro, e nem sabia dirigir. Quando a entrega era muito grande ou pesada, o pai de Carniça conseguia que algum amigo fizesse o carreto. Mas Carniça tinha que ir junto, pra ajudar a descarregar. Às vezes Carniça tinha sorte e ganhava um Guaraná ou um chocolate.

Cunha estudava e, depois, ia pra escola de inglês, paga pelos pais.

Com seu emprego de meio-expediente Carniça também teria dinheiro para pagar o inglês, se não fosse o fato de que este dinheiro iria para o bolso dos seus pais, que usavam para comprar mantimentos, pagar as contas da casa, o aluguel. De vez em quando dava para comprar uma camiseta ou calça novos. Que deveriam ser usados no trabalho ou em época de Natal.

Enquanto o Cunha pôde, tranquilamente, terminar o primário ( os pais até pagavam aulas particulares para as matérias nas quais ele não ia bem ), dando atenção específica a isto, Carniça já tinha que dividir suas responsabilidades e atenção entre escola e trabalho. Tanto que, como office-boy, ele usava seu tempo no busão ou nas filas para estudar, ler um livro. Uma merda, claro. Por sua vez, quando precisava focar nos estudos, Cunha ia pro quarto ou pra biblioteca do bairro, lugares calmos e adequados.

Carniça termina o primário e seu emprego de meio expediente se torna "full-time". Havia a promessa de que ele poderia ser promovido, daqui alguns anos, a auxiliar de escritório. Mas tinha que esperar. Não que fosse um tormento. Carniça gostava da rua. Na verdade, ele preferia. Por vezes ele se comparava com o pessoal do escritório e tinha pena deles. Claro que, no fim, o salário maior influenciaria na escolha de Carniça. Ele precisava mesmo ganhar mais. Sua familia precisava disso. Mas, no íntimo, Carniça achava que ser office-boy era mais legal. Ele pensava na relativa liberdade que sentia dispor. E nos fliperamas. Mas, verdade seja dita, mesmo com um salário maior, Carniça não passaria a ter muito mais dinheiro. Ao contrário, sua contribuição em casa aumentaria. Enfim, não havia porque se preocupar com a questão ainda. Faltavam anos praquilo se tornar uma coisa real.

Com seus 16 anos, Cunha e Carniça continuam levando uma vida parecida com a que sempre levaram até então.

Como Cunha podia se dar a certo luxo, ele começou a fazer o segundo grau, sem precisar casar ou conciliar isto com um trabalho, nem mesmo um de meio expediente. Fez um profissionalizante, à sua escolha. Escolheu contabilidade. Não se pode negar, ele estudava a sério. Fez também datilografia, pago pelos pais, assim como o inglês.

Apesar de muito jovem, às vezes Carniça já se sente cansado. Oito horas na rua, por mais que ele goste, o deixam mais sem energias que quatro horas num banco escolar. Ele diz isso aos pais, que o cobravam para se matricular pro segundo grau. Ele precisa dar prosseguimento aos estudos. Ele pede um tempo. Afinal, está levando dinheiro para casa e isso é o que deveria importar a todos. O pouco que consegue reservar para si ele não gasta em bobagens, até guarda na poupança. Sem projeto algum, apenas guarda por guardar. Ele alega, em sua lógica juvenil, que era "impossível" trabalhar e estudar, e fazer bem as duas coisas. Pela primeira vez na vida, aos pais ele compara sua situação com a de Cunha. Mas não foi por mal. Era para ser apenas um exemplo de alguém que estuda apenas, sem precisar trabalhar, e que conta com o apoio dos pais para isto. Seu pai responde: "Ele não precisa pagar aluguel. Na verdade, o pai de Cunha recebe dinheiro de aluguéis por aí". Carniça ainda não compreende. Acha que é questão de boa vontade. Por quê seus pais o obrigam desde cedo a trabalhar, afinal?

Os pais discordam numa coisa, mas concordam noutra. Se fosse possivel, eles gostariam mesmo que Carniça apenas estudasse. Mas a realidade material da familia é quem sempre dá a última palavra. Enfim, Carniça seguirá apenas trabalhando, embora algo o incomode: ele já intui que aquilo foi uma vitória relativa.

Passados três anos, a promoção ainda não veio. O salário permanece praticamente o mesmo. Mas Carniça ainda não tem intenção de procurar outra coisa.

E, finalmente, decide voltar à escola. Terá mais três anos de bancos escolares pela frente.

A turma da rua ainda era a mesma, mas já possuem novos hábitos e rotinas que convivem razoavelmente com as de sempre. Ainda jogam bola na rua. De vez em quando juntam uma grana e alugam uma quadra de salão. Um ou outro tem uma namoradinha, outro acolá joga videogame. Às vezes vão no boteco, mas ninguém ali ainda bebe álcool, só guaraná e coca-cola.

Logo, Cunha, assim como Carniça, passa a ter opiniões sobre assuntos além do universo juvenil, do qual iam se afastando. Já não se tratava de opinar se BMX era melhor que Caloi, se o carro da Supermáquina falava mesmo ou se era truque, ou quem era a menina mais bonita da rua.

Quando Cunha narrava o que escutara no programa do Afanásio Jazadi e dizia concordar com a truculência dele, aquilo incomodava Carniça. Mas tudo bem, era só uma opinião que não ia mudar a vida de ninguém. Ainda eram jovens e a divergência pontual de ideías não tinha o poder de afastar ninguém. Além disso, haveria tempo para que estas "divergências pontuais" se somassem a outras e, conjuntamente, se tornassem finalmente a base do pensamento de cada um deles. Naquele momento, a "divergência pontual" se encerrava na figura de um tapão na orelha, de brincadeira.

Na temida época de se apresentar pro serviço militar. nenhum dos dois amigos foi convocado. Cunha conseguiu, por intermédio de um amigo do pai, ser dispensado. Carniça não passou e não soube o motivo. Ele era raquitico, mas conhece raquiticos que serviram. Tinha asma, seria por isso? A pésima dentição? Arrimo ele não era. Enfim, não quis nem saber.

Cunha termina a escola e conta a Carniça que o pai lhe arrumará um emprego no escritório de um amigo. Cunha ganhará mais do que Carniça ganhava. Afinal, já manjava um pouco de contabilidade. Cunha finalmente começa a trabalhar e fica com o dinheiro do salário para si. Carniça ainda não. Não tarda, e logo Cunha compra um carro, com o dinheiro do trabalho dele. Carniça comprou uma calça nova, para trabalhar. Cunha comprou uma calça e um tênis novo, pra ir nas festas. Cunha começa a fazer cursinho.

Tempos depois os amigos se encontram na rua, conversa vai, conversa vem, e Cunha diz a Carniça que seu chefe é todo elogios e que, em breve, vai pintar uma chance boa lá no escritório para ele. Uma das moças se casará e isto abrirá uma oportunidade com salário maior.

- Já pensou - diz Cunha - não tenho nem dois anos lá, pinta uma chance dessas e eles pensam em mim? Tem que ser bom, mesmo!

Os anos de trabalho de Carniça, no entanto, nada siginificavam. Seu esforço, resultados práticos e experiência apenas o levaram a ser cada vez mais elogiado pelos chefes e só. De fato, como eles lhe diziam, nunca houve melhor office-boy naquele escritório. Em vez da promoção prometida há tempos, ele pede um aumento. Eles ficam de pensar. Antes disso, que tal se ele se esforçasse mais? Assim, ele passa a ajudar - "aprender", diziam os chefes - também nas tarefas do escritório. Apesar disso, como os irmãos do Carniça estão todos já trabalhando em algum subemprego, finalmente sobra uma merrequinha do salário para ele. Mas não pode abusar.

( Futuramente, já demitido daquele estabelecimento, Carniça descobriria que aquele "aprendizado", que era específico PARA AQUELE escritório, não lhe serviria como argumento para arrumar emprego de auxiliar, já que em sua carteira de trabalho havia o registro explícito de "office-boy" e nada mais. )

Carniça sai do escritório às 5 e volta para casa, que é próxima tanto do escritório como da escola. Descansa, come um lanche, toma um banho, e ruma para o colégio. Que, dessa vez, é estadual. Mas já não é a mesma coisa de antes. Como no primário, também agora, Carniça se sai bem nos estudos. Com uma diferença em relação ao primário: ele não se esforça tanto. As notas no boletim não indicam isso. Quem as visse acharia que ele era um CDF, o que estava longe da realidade. Ele só queria o diploma. Naquele momento, era apenas questão de cumprir uma formalidade. Como participar de uma gincana.

Cunha, que fez cursinho, passa no vestibular, para um dos cursos mais disputados da época, ganha elogios e um pequeno aumento do chefe, como presente por ter passado no vestibular, o que seria útil e decisivo às pretensões de ambos ali na empresa.

Carniça é demitido por "responder mal" ao chefes, depois de ter cobrado o aumento de salário ou a promoção, o que viesse antes. O aumento nunca veio, assim como a prometida promoção.

Cunha é promovido e compra uma garrafa de whisky, como presente para si. Carniça vai chorar as mágoas de sua demissão bebendo Cavalinho no boteco do Bahia.

Carniça finalmente recebe o diploma de segundo grau. Mas não tem dinheiro para pagar faculdade particular e a pública está fora de cogitação. O jeito é continuar se dedicando ao trabalho, quando estiver em algum. Quem sabe as coisas mudam, vai se saber.

ANOS SE PASSAM

Um outro dia qualquer, se encontram numa lanchonete do bairro. E começam a botar a conversa em dia. Falam da família, de como o bairro mudou, dos empregos, de futebol, da velha turma etc. Cunha se surpreende ao saber que Carniça nunca faz faculdade:

- Você tirava boas notas, eu lembro, todo mundo falava isso.

- É, concluiu Carniça.

E tome cerveja. Embora nenhum dos dois ainda leve isso tão a sério, chegam até a virar amigos no Orkut, depois de tantos anos sem se verem. Lindo isso, como essa tecnologia, essa modernidade, ela une e reúne as pessoas.

Depois de anos, uma velha amizade se renova. Marcam de se encontrar outras vezes.

Numa dessas ocasiões, até por falta de assunto naquele momento, Cunha conta dos esquemas que a firma dele fazia, ora enganando fornecedor, ora enganando cliente. Sem contar das vezes que a firma, que às vezes prestava serviço pros governos, acabava metendo a mão mesmo era em verba pública. O Cunha não contava isso em tom de denúncia, mas de regozijo. Até porque ele, o Cunha, TAMBÉM fazia uns esquemas dele dentro da firma. Ele contava os casos com um profundo ar de autosatisfação. Carniça escutava mas nem comentava. Não seria a primeira vez em que lhe contavam coisas assim. Trabalhava de balconista numa loja e vez ou outra ouvia confissões parecidas. Não gostava dessas histórias, mas, fazer o quê? Bater boca e perder o emprego?

VEM O FACEBOOK
Os amigos de Orkut e de infância migram para o Facebook. A partir daí, embora não ainda saibam, estaria determinado o fim da amizade. O Orkut não teve condições de fazer isso, mas a plataforma do Zucker teve esse poder. Claro que a culpa não é da plataforma em si, mas talvez do momento em que isso aconteceu. De repente, Cunha começou a redescobrir seu talento para contar as piadas que faziam a alegria da molecada de sua infância. AQUELAS. Percebeu que havia um imenso campo, propicio a isto. E obteve sucesso. Para sua imensa satisfação, conseguiu uma legião de novos amigos. Muitos deles, talvez a maioria, adorava repassar adiante as piadas de Cunha. Este, por sua vez, além das piadas e de comentários sobre politica, adorava postar as fotos que demonstrassem seu sucesso. Assim, às imagens de sua visita à uma das haburguerias gourmet mais caras da cidade, ele acrescentava comentários sobre "mortadela" e "comer calango". Sob a foto que tirou quando foi a Nova York, a legenda: "Hot-Dog na 5a avenida é mais chique do que pão com mortadela em Itaquera"
Cunha versava sobre os direitos das pessoas ( "Muitos. Dever que é bom ninguém quer" ) e amava contar como subiu na vida. "Com o proprio esforço", contava. Teve milhares de "Curtir" quando contou a história de que "vendia chocolate aos 12 anos". 
Só que Carniça, que sempre lia as postagens do amigo - e vice-versa - corrigiu-o, dizendo que ele vendia os chocolates e pegava o dinheiro para ir ao cinema. "Não lembra que era assim?", perguntou a Cunha. Este detestou ter sido corrigido por Carniça.

Depois desse dia, começou uma espécie de "guerra não declarada" entre os amigos. Um escrevia algo sobre o desemprego, outro ia lá e falava que a culpa era do governo. Outro falava sobre impostos e era contestado, com a informação de que os ricos quase nada pagavam.

Ficou nisso por meses e anos.

Por fim, Carniça bloqueou de vez o Cunha quando este, em época eleitoral, além de novamente falar sobre sua própria meritocracia, omitindo as partes mais significativas, resolveu reclamar da corrupção no Brasil. Aí não tinha mais jeito.

FIM

(*) Sim, o nome é ligeiramante inspirado em "Tonico e Carniça", clássica obra da igualmente clássica Coleção Vagalume

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quarta-feira, 18 de maio de 2016

Joaquim Barbosa: Michel Temer não tem legitimidade para conduzir o Brasil, por Jasson de Oliveira Andrade


Em artigo neste blog ( "Impeachment: Jurídico ou Político?" ), escrevi que a medida extrema tem que ter um embasamento Jurídico. No entanto, apesar disso, a decisão é política, visto que quem decide são os deputados e os senadores. Citei o caso das pedaladas: “o curioso é que Temer também pedalou. Ele pode e a Dilma não? (...) Se os crimes são iguais, ambos deveriam ser cassados. Isto se fosse Jurídico. Como é político, um [Dilma) é cassado outro [Temer] não!” Agora, as pedaladas de Dilma também estão sendo consideradas duvidosas. É o caso do pronunciamento do ex-ministro Joaquim Barbosa, jurista muito respeitado e que se tornou um herói nacional por seu desempenho do processo do Mensalão Petista. Em palestra, ele fez um pronunciamento polêmico. O que se vai ler a seguir é a opinião abalizada do ex-ministro Joaquim Barbosa, divulgada pelo Estadão.

“Após o Senado Federal aprovar a admissibilidade do processo do impeachment de Dilma Rousseff, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa questionou a maneira como o processo foi conduzido e, embora tenha admitido que a agora presidente afastada falhou no cargo (sic), disse que o vice Michel Temer não tem legitimidade para governar o País. Para ele, o ideal seria que novas eleições fossem convocadas – o que, admitiu, dificilmente seria aprovado pela mais alta Corte do País. (...) Para Barbosa, o descumprimento de regras orçamentárias [pedaladas], principal motivo apontado no pedido de impeachment, NÃO É FORTE O SUFICIENTE PARA AFASTAR UM PRESIDENTE (destaque meu). Temos um problema sério de proporcionalidade, pois a irresponsabilidade fiscal é o comportamento mais comum entre nossos governantes em todas as esferas. (...) O ex-ministro reconheceu que, “do ponto de vista puramente jurídico”, o impeachment pode ser justificado, mas disse que tem “dúvidas muito sinceras”, quanto à sua “justeza e ao acerto político que foi tomado para essa decisão”. (...) “O impeachment é a punição máxima a um presidente que cometeu um deslize funcional gravíssimo. Trata-se de um mecanismo extremo, traumático, que pode abalar o sistema político como um todo, pode provocar ódio (sic) e rancores e tornar a população ainda mais refratária ao próprio sistema político” (...) “É muito grave tirar um presidente do cargo e colocar em seu lugar alguém que é seu adversário oculto (sic) ou ostensivo, alguém que perdeu uma eleição presidencial ou alguém que sequer um dia teria o sonho de disputar uma eleição para presidente. Anotem: o Brasil terá que conviver por mais 2 anos com essa anomalia. (...) É um grupo que, em 2018, completará 20 anos sem ganhar uma eleição”. (...) Ao final de sua palestra, Barbosa ressaltou que está preocupado com o futuro da instituições brasileiras. “Eu me pergunto se esse impeachment não resultará em golpe certeiro em nossas instituições, eu me pergunto se elas não sairão fragilizadas, imprestáveis (sic). E vai aqui mais uma provocação: quem na perspectiva de vocês, vai querer investir em um País em que se derruba presidente com tanta ligeireza, com tanta facilidade e com tanta afoiteza? Eu deixo essa reflexão a todos”.

Ninguém poderá dizer que esse pronunciamento do ex-ministro Joaquim Barbosa é político. Ele é isento, jurídico. Para mim, é uma fala histórica. No futuro, quando o ódio se aplacar, essa opinião dele será julgada! Aí veremos quem vai sair bem ou mal na foto...

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

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terça-feira, 17 de maio de 2016

A diplomacia do porrete do Vampiro Serra


Diplomacia do porrete


No primeiro dia como ministro das Relações Exteriores, o tucano José Serra adotou uma linha pouco diplomática. Em duas notas oficiais, ele atacou os governos de cinco países e a direção da União das Nações Sul-Americanas, a Unasul.

O chanceler estreante se irritou com críticas ao processo que afastou Dilma Rousseff e promoveu seu novo chefe, Michel Temer. Na primeira nota, Serra mirou os governos de Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua e Venezuela. Ele acusou os cinco países de "propagarem falsidades sobre o processo político interno no Brasil".

A segunda nota foi um petardo contra o secretário-geral da Unasul. O ministro acusou Ernesto Samper de usar "argumentos errôneos", fazer "interpretações falsas" e expressar "juízos de valor infundados".

Para Serra, os comentários do colombiano seriam "incompatíveis com as funções que exerce e com o mandato que recebeu". Samper reagiu com ironia. "Fizeram o impeachment da presidente do Brasil, agora querem o impeachment do secretário-geral da Unasul", disse, segundo o jornal "Valor Econômico".

Nesta segunda, o chanceler retomou a artilharia. O alvo da vez foi El Salvador, que suspendeu os contatos com o Brasil. O Itamaraty chegou a insinuar uma represália econômica, lembrando que o pequeno país é "o maior beneficiário" de cooperação brasileira na América Central.

A beligerância de Serra tem um sentido óbvio. Nomeado para uma pasta de pouca visibilidade, ele já conseguiu se projetar e garantir espaço nos jornais. A exposição é parte essencial do seu plano de ressurgir como candidato à Presidência da República em 2018 —pela terceira vez e não necessariamente no PSDB.

O tom inaugural do chanceler empolgou aliados, mas preocupou muitos diplomatas experientes. Parte da força do Brasil no exterior se deve ao esforço para manter a neutralidade e dialogar com todos os países. Essa aposta no "soft power" não combina com uma diplomacia do porrete.


COMENTÁRIO DESTE BLOGSó deu pra ler a manchete, já que a notícia no site da Folha é exclusiva para assinantes. Mas parece que Serra quer saber dos custos de se manter embaixadas em países africanos e caribenhos.

Grande parte da diplomacia iniciada por Lula era voltada para estes países, digamos, terceiro-mundistas.Lembro que o caráter real das "Jornadas de Junho" ficou claro para mim quando uma turba invadiu o Itamaraty. Ali tudo ficou claríssimo e toda a boa vontade que eu poderia ter tido - aliás, não tive - morreu ali.

A diplomacia de Lula e Celso Amorim, visando ampliar e reforçar os laços com países que não apenas da União Européia ou os EUA incomodava muita gente, embora eu não tenha a mínima noção do assunto e não possa responder o porquê disso, por mais que tenha tentado me informar sobre o tema. Sei da importância econômica dessa diplomacia, do tipo, não se coloca todos os ovos numa cesta. 

Por outro lado, quando li a chamada do jornal, informando que as embaixadas africanas e caribenhas é que estão no alvo de Serra, em vez de diplomacia, pensei no velho Serra que uma vez jogou a culpa da péssima educação paulista nos nordestinos ( ele disse "migrantes", mas sabemos que ele não falava em catarinenses ou gaúchos brancos ).

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